quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Erros de revisão que custaram uma vida



“Em 12 de junho de 1712, o papa Clemente XI encontrava-se repousando em Castel Gandolfo, para onde se pôs a caminho o poeta Alessandro Guidi a fim de prestar-lhe homenagem por meio de uma imponente publicação — Sei Omelie, tradução de pregações em latim do papa —, um dos mais queridos e apreciados frutos de seu engenho; porém, ao folhear o livro que tinha em suas mãos, Guidi deparou-se com ERROS DE REVISÃO, apesar de todo o seu cuidado; e tal visão tanto o consumiu e perturbou seu coração que nos arredores de Frascati foi surpreendido por uma apoplexia [AVC], que poucas horas de vida lhe concedeu.”

(extraído e adaptado de TURRONI, Girolamo. Elogio di Alessandro Guidi. Pavia: Tipografia di Pietro Bizzoni, 1827, p. 66.)



* Agradeço ao Marlon Magno a gentileza de ter traduzido trechos da obra original em italiano.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"O danado é que a agressão escapou aos revisores..."


Na visita de D. Pedro II ao Recife, coube ao jornal Diário de Pernambuco emprestar o maior brilho no rol das homenagens. [...] Os melhores redatores teceram-lhe ditirambos em prosa e verso pelas honras de que o Recife se fazia merecedor com a majestade de tão real visitante. [...] Por outro lado, conta-se que da parte do pessoal gráfico um fato ocorreu de modo condenável. Numa das matérias da visita imperial, ao pé da composição e como se continuando com o seu texto, um dos tipógrafos ajuntara uma frase ofensiva a Sua Majestade:

Vem aí o sacana-mor do Império.

O danado é que a agressão escapou aos revisores. A matéria saiu com aquele insulto e, ao que se supõe, a edição foi recolhida, sendo raro encontrar-se exemplar com o ostensivo e gratuito protesto partido certamente de algum operário gráfico de ideias republicanas.

(JAMBO, Arnoldo. Diário de Pernambuco: história e jornal de quinze décadas. Recife: Diário de Pernambuco, 1975, p. 196)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O revisor de texto nos anos 50


“O revisor é muito frequentemente um empregado desvalorizado, cujos serviços são considerados por vezes supérfluos. Em muitas tipografias, fica relegado a um cubículo pequeno e abafado que não pode ser aproveitado para outro fim, ou fica encarcerado num desvão de um canto de sala. Idealmente, necessitaria de luz e ar, tudo o que conduzisse à acuidade mental e à perspicácia visual; e, às vezes, ele consegue esse ideal ou algo parecido.

É um engano, e sério e bobo engano, subestimar o revisor, pois dele depende não pouco da reputação de uma casa impressora; e ele pode, ademais, ser o meio para prevenir ações legais de difamação e prejuízos.

Os revisores trabalham ou juntos no mesmo local ou em algumas impressoras em seu compartimento próprio. Assistindo-os, há umas quantas moças ou rapazes, chamados leitores. A tarefa do revisor é descobrir quaisquer erros que tenham sido cometidos na composição e dar instruções para sua correção, e também zelar por que os enganos do próprio autor sejam evitados, chamando, se for o caso, a atenção deste.

[...] De preferência, qualquer livro deverá ser lido antes em sua inteireza pelo revisor. O leitor é então chamado a ler alto, do manuscrito ou do original datilográfico do autor, enquanto o revisor acompanha as palavras da prova, comparando-as com as da leitura, vigiando os erros tanto da composição quanto do leitor, e também do autor, evitando as letras de fontes estranhas que se possam ter infiltrado no texto composto, observando os pontos que possam ser objeto de ação legal ou o que quer que seja que possa comprometer a boa reputação da casa ou possa levá-la a complicações legais.”

(The Making of Books, Sean Jennett, 1956, p. 103. Trecho traduzido por Antônio Houaiss em Elementos de Bibliologia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fábulas Pornomorfológicas (I)



Certa manhã de janeiro de 2009, na fazenda Dicionário...

— Ei! Cadê meus hifens? — perguntou o bumba meu boi.

— O novo Acordo Ortográfico mandou recolher tudo... também fiquei sem nada — disse o pé de moleque.

— Mas que abuso... Isso sim é o que eu chamo de lesa-ortografia! Mas já dou um jeito nisso... — e saiu à cata de pronomes pessoais. Não demorou muito pra se esbarrar com um tezinho:

— Ei, pronominho, vem cá... Tá vendo aquele verbo darei ali? Tá ali, só no futuro do presente, te dando mó mole! Tá esperando o quê, tezinho? Vai lá, rapaz, faz mesóclise com ele!

O pronome não pensou duas vezes: partiu pro bote e se enfiou bem no meio do verbo, formando um dar-te-ei. Era tudo de que bumba meu boi precisava:

— Que tal rolar uma próclise agora? Hummm... Mandou bem, hein, pronominho? Ficou bem assim. Bom, vou aproveitar e levar esses hifens, ok? Com a crise da Reforma, tem muita locução carente por aí precisando disso aqui.

E assim o bumba-meu-boi se mandou, vestido e feliz, com sua antiga ortografia.


Moral da históriaEm terra de reforma ortográfica, quem tem um hífen é rei.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O advogado e a gramática: casa de ferreiro, espeto de pau

O projeto "Sinal do Saber" foi lançado em julho de 2013


Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão
e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho?

(Mateus 7: 3)


Lutero de Paiva, um advogado de Maringá, tomou a iniciativa de transmitir, por meio de faixas, várias lições gramaticais à população: Não existe a palavra menas, somente menos“O plural é troféus e não troféis”; Não é perca de tempo, mas perda de tempo”; O correto é casa geminada e não germinada”; O plural é cidadãos e não cidadões”. Você pode conferir aqui a reportagem do G1.

O projeto foi além dos sinaleiros e já toma conta até de canteiros de obra, onde se tenta corrigir a fala dos pedreiros: “mulher em vez de “muié”; betoneira em vez de “bitoneira”; vassoura em vez de bassoura”. Embora não exista motivo para questionar a boa vontade e a intenção do dotô,  é curioso notar que esse incômodo em relação aos (maus?) usos linguísticos parece não levar certos profissionais de nível superior a questionarem o próprio domínio sobre a norma culta que tanto desejam ver defendida e usada.

Ora, o advogado está implicando com os vícios de linguagem de outras classes (sociais e profissionais) ao mesmo tempo que não atenta para os vícios de sua própria classe, cujo juridiquês — ao contrário da linguagem popular e coloquial, que todo mundo consegue entender — se torna cada vez mais distante de uma linguagem objetiva, direta e inteligível! Se prestarmos atenção direitinho à questão, perceberemos que os usos formais — porém viciadosdos advogados são mais preocupantes e prejudiciais à comunicação e à praticidade do cotidiano do que os usos informais dos pedreiros que desejam corrigir.

É possível notar também certo ranço de indisposição com os usos populares. Não tenho nada contra o potencial criativo do juridiquês, mas se os advogados se reservam o direito de criar neologismos como inobstante e presentante, por que se incomodar com variações surgidas entre falantes de âmbitos menos cultos?


Lutero quer combater o uso dos "vícios de linguagem"

Ora, o chicote do rigor deve ser compartilhado com todos. O que eu recomendo é que ele aproveite a oportunidade de, ao mesmo tempo que tenta esclarecer os incultos sobre as formas ditas corretas,  também elaborar as seguintes faixas: 

Advogado, você sabia que o correto é uma vez que e não de vez que ou vez que?

O correto é por via de regra e não via de regra.

A palavra alegativa não tem registro dicionarizado; em seu lugar, use alegação.

Não se diz lado outro, e sim por outro lado.

Face a é expressão errada. Use em face de ou em face a.

O verbo da expressão no que pertine não existe!

Essas são apenas algumas sugestões. Talvez dê um trabalhão criar banners para cada vício advocatício, mas garanto que tal medida, se levada adiante, poderia se mostrar tão útil quanto aquela tomada recentemente pelo dotô.

Vale observar que o ímpeto de Lutero não é novidade em seu meio. Durante a primeira década do século XX, o (rufem os tambores!) grande jurista Ruy Barbosa travou um histórico duelo gramatical com seu antigo mestre, o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro: a chamada revisão do Código Civil (1902-1905), considerada por Leite (1999, p. 76) “o maior símbolo do purismo linguístico do português do Brasil”, é um episódio que ilustra perfeitamente a manutenção de um critério de correção que não se pautasse pela forma (falada e) escrita no Brasil, tal era o apego ao português lusitano.


Carneiro Ribeiro (1839–1920). Segundo Piacentini,
"o maior gramático que o Brasil já teve".


Ruy, chamado por Monteiro Lobato de canto de cisne da língua portuguesa”, era defensor fervoroso da “ideia de uma língua em uso por autores portugueses canônicos” (MARIANI, 2011, p. 253) e combateu a redação dada ao projeto do Código Civil, então abonada por Carneiro Ribeiro, que defendia a normatização de peculiaridades do português falado no Brasil  (em resposta a seu ex-discípulo, o gramático afirmou que “temos, logo, razão de dizer: o purismo exagerado, intransigente, é impossível, perante o estudo histórico das línguas”). Até hoje, a famosa Réplica (1902) de Ruy é lembrada como espécie de obra-prima da defesa do português culto, mas não se pode ignorar o fato de que sempre lhe foi atribuída uma autoridade e um conhecimento dos quais carecia (como o saber filológico, por exemplo).

Você duvida? Os fãs do Águia de Haia odiarão ler as próximas linhas: “É surpreendente que ele mesmo [Ruy Barbosa] incida em numerosas incorreções que implacavelmente condenava, como, num dos excertos [...] citados: Escasseava-lhe [...] as luzes indispensáveis’, ou, incansável caçador de cacófatos, ao defender-se das acusações de que também os cometia: ‘Sendo, porém, a coisa desprezível [...] eu me não ocuparia [...]. Além disso, Barbosa “se colocava na posição de quem decide o que é vernáculo e o que não o é” (MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira, vol. V, 1879-1914, p. 170).

Como se pode constatar, trata-se de um mal histórico da classe advocatícia.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

COmédiA da vIda TiPoGráfiCA (I)


— E aquele tipo sem serifa bebendo sozinho e cabisbaixo naquela mesa?

— Ah, é do tipo que vive interessado em gente serifada que nem liga pra ele.

domingo, 22 de setembro de 2013

Um curso maldito desde sempre



[...] ocorreram nessa relação alguns problemas. [...] um segundo problema se dava os gênios de Sr. Allan e de Edgar Allan Poe. O Sr. Allan gostava de coisas que o poeta não gostava: queria que estudasse Direito, Poe preferia as Letras [...].

(Edgar Allan Poe: um homem em sua sombra, Ricardo Araújo, p. 33)


Moral da HISTÓRIA: Nada mudou até hoje. Desde sempre, pais querem que os filhos façam Direito ou Medicina, e não esses malditos cursinhos de Letras.

sábado, 31 de agosto de 2013

Contra médicos estrangeiros

Os gregos são uma raça que não vale nada, não se consegue ensinar nada a eles. Ao conceder sua literatura para nós, eles irão destruir toda a nossa existência. Esse processo será ainda mais rápido se eles enviarem seus médicos, pois estes estão conspirando para matar, com sua medicina, qualquer um que não seja grego. Eles nos fazem pagar pelo tratamento para que depositemos neles toda a nossa confiança, apenas para nos arruinar mais facilmente.” (Catão, o Velho, 234 a.C. – 149 a.C.)

(citação extraída de McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)

Hic habitat felicitas



HIC HABITAT FELICITAS ("A felicidade mora aqui"). Essa frase com a ilustração foi colocada originalmente no centro do arco sobre o forno de um padeiro de Pompeia para espantar os maus espíritos. No começo do século XX, a placa foi transferida, juntamente com dúzias de artefatos que hoje em dia dificilmente seriam considerados ofensivos, para o "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu Arqueológico de Nápoles. A mesma inscrição, seguida de nil intret mali ("Que nenhum mal entre"), mas sem a ilustração, foi encontrada em um mosaico na entrada de uma casa de Salisburgo. Restaram muitos anéis decorados com um símbolo fálico daquela época, que eram usados por crianças como amuletos de proteção.

(McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Nunca tantos leram tão pouco (1949)

Nunca houve tanto automóvel circulando, tanto rádio novelizando, tanta eletrola domesticando música, e nunca se vendeu tanta geladeira elétrica, tanta vassoura elétrica, tanta lavadeira elétrica, e tantas outras maravilhas, elétricas ou não, que representam o sonho de todo o mundo e que constam de todo o orçamento pré ou post-nupcial. [...] Enquanto livrarias se fecham e editores mudam de profissão, os cinemas, os auditórios de rádio (a Cr$ 15,00 por cabeça) e os estádios esportivos vivem repletos e prosperam.

(ROSENBLATT, Maurício. Nunca tantos leram tão pouco. Jornal de Letras. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1949)

sábado, 27 de julho de 2013

PM divulga imagem de manifestante que atentou contra a norma-padrão durante protesto



RIO – A Polícia Militar divulgou hoje imagem, com melhor visualização, em que um manifestante faz claramente uso ilegal de concordância verbal. Conservadores apontam crime de lesa-gramática: de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, o falante deveria ter redigido "não se fazem..." em vez de "não se faz" no cartaz que empunhava.

Linguistas saem em defesa do acusado e alegam que o falante de português entende o "se" como índice de indeterminação do sujeito. A PM rebate argumentando que o sujeito não está indeterminado coisa nenhuma, pois o elemento já foi identificado.

Vários manifestantes declararam que o atentado não teria sido cometido pelo falante P1, mas sim por um falante P2 (agente infiltrado da polícia) que, momentos antes do protesto, trocou o cartaz do manifestante com outro redigido em outra variante linguística a fim de provocar discórdia gramatical e a ira da classe linguística conservadora. Entretanto, de acordo com a corporação, o P2 não domina nenhuma das variantes linguísticas envolvidas e jamais poderia, portanto, ter cometido um ato tão bem pensado como esse.

domingo, 23 de junho de 2013

De poesia do socialismo português a canção do rock brasileiro

Reinaldo Ferreira (1922-1959):
joia literária a ser (re)descoberta

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (1922–1959) foi um poeta português singular. Nunca teve um só livro publicado em sua breve vida, passada toda em Moçambique, mas deixou um legado tão marcante e significativo que até levou críticos literários a compará-lo estilisticamente a Fernando Pessoa. A descrição mais recente de sua vida e obra foi publicada no livro Poesia do Socialismo Português (2010).

Sua obra completa — que jamais contou com uma publicação impressa na íntegra — pode ser visualizada inteiramente neste link.

Apesar de certo ostracismo (talvez seja um poeta mais lido por autores que por leitores), alguns poemas de Reinaldo Ferreira foram musicados por compositores portugueses. Curiosamente, um deles foi musicado (tendo seu texto levemente modificado) no Brasil, em meados dos anos 80, por Edgard Scandurra, guitarrista da banda IRA!, que lançou a música em 1988 no disco Psicoacústica (elogiado pela crítica, mas fracasso de vendas):


Receita para se fazer um herói*

Tome-se um homem, 
Feito de nada, como nós,
Em tamanho natural.

Embebece-se-lhe a carne,
De um jeito irracional,
Como a fome, como o ódio.

Depois, perto do fim,
Levanta-se o pendão,
E toca-se o clarim.

Serve-se morto.


A canção pode ser ouvida aqui.

O amado e odiado LP "Psicoacústica", lançado em 1988
Scandurra tomou conhecimento desse poema no início dos anos 80 ao servir no Exército, ocasião em que conheceu o soldado Esteves, que havia lhe apresentado picaretamente o texto como sendo de sua autoria. O nome do soldado saiu nos créditos (Esteves, cadê você?, perguntava no encarte o guitarrista, cujo contato havia se perdido), mas, assim que a canção começou a fazer sucesso nas rádios FMs da época e se tornou um hit, Esteves reapareceu na vida de Scandurra e reclamou uma grana absurda pela autoria, ameaçando pedir na Justiça o recolhimento do disco nas lojas. Isso acontecia ao mesmo tempo que uma leitora daquela que foi um dia a mais popular revista especializada em música do país, Bizz, acusava a banda de plágio porque havia lido a letra da música num livro de História. De acordo com um jornalista da Bizz, José Flávio Jr., toda a confusão só foi esclarecida quando a viúva do poeta português foi localizada e encontrada (observem que esse caso dificilmente teria chegado a tal ponto nos dias de hoje, em que uma consulta ao Google se faz suficiente para se comprovar muitas autorias).

Por causa dum soldado picareta do Exército, um poema português se transformou num sucesso de rock radiofônico no Brasil dos anos 80. E, sem essa picaretagem e a posterior musicação do poema, provavelmente eu estaria ignorando até hoje a existência de Reinaldo Ferreira e sua interessante poesia.



* O título original do poema é Receita de herói; seu texto original (uma referência implícita às receitas culinárias) é: "Tome-se um homem feito de nada/ Como nós, em tamanho natural/ Embeba-se-lhe a carne/ Lentamente/ De uma certeza aguda, irracional/ Intensa como o ódio ou como a fome./ Depois, perto do fim/ Agite-se um pendão/ E toque-se um clarim./ Serve-se morto."

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Origem e história das minúsculas

Trecho do Manuscrito de Freising (séc. X),
um dos mais belos exemplos de minúscula carolíngia

As maiúsculas, todo mundo sabe: primeiro apareceram nas fachadas e nos monumentos de Roma no século I como elemento decorativo que enfatizava o poder dos romanos no começo da era cristã. Mas e a caixa-baixa? Aconteceu no século VIII, sob o reinado de Carlos Magno, o rei do mundo naquela época. Carlos Magno convocou o escriba-mor da corte, o Bispo Alcuin, na cidade de York, e encomendou-lhe uma letra que fosse bela, legível e fácil de escrever.

Alcuin criou uma letra maravilhosa chamada “Minúscula de Carlos Magno” ou Minúscula Carolíngia. Essa letra passou a ser obrigatória para todos os escritos do rei, que queria assim fazer com que todos lessem a Bíblia do mesmo jeito, dando-lhe uma interpretação padronizada (a igreja sempre por trás dos escribas). A Minúscula Carolíngia era usada em todas as situações, o que na verdade foi a primeira identidade visual racionalmente criada com objetivos pré-estabelecidos. Hoje em dia, é fácil datar os livros dessa época só pela sua letra. Mas a grande vitória da Carolíngia foi na Renascença, quando o alfabeto foi todo redesenhado. O padrão para as maiúsculas foi a Capitalis Romana do século I, e o padrão adotado para as minúsculas foi a carolíngia que, por um erro de datação, foi classificada como contemporânea da Capitalis, setecentos anos mais velha. Então, a maiúscula é filha da arquitetura clássica de Roma [...]. E a minúscula é filha da mão do bispo Alcuin, o grande calígrafo de Carlos Magno.

(GIL, Cláudio.  De onde vieram as minúsculas. In ORCADES, Carlos M. (Org.) Almanaque Tipográfico Brasileiro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008, p. 16).

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Se Keynes fosse linguista




“Os revisores práticos, que se acreditam livres de qualquer influência intelectual, são geralmente escravos de algum gramático morto.”

(Keynes, John Maynard. A Teoria Geral da Gramática, do Erro e da Correção. Londres: Macmillan Press, 1936)

sábado, 11 de maio de 2013

Da reprovação à revolução: uma lição histórica


Num documento de 1817, ignorado pela maioria dos historiadores, Frei Caneca redigiu uma petição a D. João VI defendendo-se da acusação de participar da Revolução Pernambucana (da qual ele realmente NÃO tomou parte, embora isso seja disseminado em livros e sites).

Confira o que ele revela no trecho sublinhado da petição:

(MOREL, Marco. Frei Caneca: entre marília e a pátria, 2000, p. 48)

Moral da História (sim, da Historiografia mesmo): evite reprovar seu aluno por causa de gramática. Amanhã, ele pode furar o pneu do seu carro... ou te acusar de conspiração.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Deputados devem decidir nesta semana se darão ou não direito de acento ao cu; alguns deles desejam estender o direito ao nu


"Estilisticamente, um acento no cu deixa a palavra mais elegante, expressiva e incisiva" disse o deputado Analstácio Fiofóvsky (PSCU). "Imagine mandar alguém tomar no 'cu', assim, sem acento... perde-se toda a violência ortográfica, priva-se o interlocutor de sentir toda a carga semântica do xingamento", complementou. "Já o acento no nu destaca seu exibicionismo e reforça o tom de sua devassidão", observou Anúsio Nunes, deputado do PSDBunda.

A polêmica questão ortográfica, que vem atravessando séculos, deverá ser finalmente votada nesta cuarta-feira. Segundo dados do IBGE, mais de 90% da população (e isso inclui parcela significativa de usuários da norma CUlta) coloca acento no cu; um número bem menor (40%) gosta de acentuar o nu. Entretanto, os que assim procedem incorrem em crime de lesa-ortografia, punível com multa e pena de 1 a 2 anos de leitura forçada.
(Agência Estado)

sábado, 4 de maio de 2013

Um rato de sebo em êxtase


Uma litografia de Daumier intitulada Un bouquiniste dans l'ivresse ("Um rato de sebo em êxtase"), de 1844, ilustra perfeitamente a fascinação bibliofílica pela raridade. Ela representa um homem folheando um pequeno volume e dizendo, com ar exaltado, a outro aficionado: "Nada se compara à minha alegria... acabo de encontrar, por cinquenta escudos, um Horácio impresso em Amsterdã em 1780... essa edição é excessivamente preciosa: cada página é repleta de erros!".
(BONNET, Jacques. Fantasmas na biblioteca: a arte de viver entre livros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 31)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pelo direito à ternura textual


“A ciência, que é também uma modalidade da linguagem, costuma cifrar seus informes em certo modelo frio e burocrático, sem que isso queira dizer que a verdade não pode assumir a forma sugestiva de uma expressão calorosa e acariciadora. A frialdade do discurso científico não é outra coisa senão uma expressão das lógicas de guerra que se inseriram na geração do conhecimento, sem que possamos converter essa deformação histórica num único parâmetro de vitalidade.

Como quiseram uma vez os retóricos e os sofistas, o discurso deve vir carregado de emoção e astúcia persuasiva, pois ali também se decide a veracidade ou falácia dos enunciados. Independentemente da forma que assumam – quer seja a breve e telegráfica dos informes que se publicam nas revistas especializadas, a monótona das teses de graduação ou a amena dos livros de divulgação – os discursos científicos mostram sua fertilidade cognitiva quando conseguem explicitar os pressupostos sobre os quais se assentam, sem assumir a forma de uma enunciação dogmática.

É, pois, a capacidade de gerar crítica e reflexão e não o empobrecimento discursivo e literário a característica que permite distinguir o pensamento científico da repetição dogmática e da charlatania. [...] não podemos deixar de afirmar que, para nós, o discurso é também um agora que pode encher-se de ternura, sendo possível acariciar com a palavra sem que a solidez argumental sofra detrimento por fazer-se acompanhar de vitalidade emotiva.”

(RESTREPO, Luís Carlos. O direito à ternura. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998, p. 17)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Se Cazuza fosse revisor

http://www.youtube.com/watch?v=cBAZDJmbUb0


A norma culta fede
A norma culta quer ditar língua
Enquanto houver norma culta
Não vai haver poesia

Pobre de mim que vivo da norma culta

Sou revisor mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal

A norma culta não dá valor à fala

Da vendedora de chicletes
A norma culta só olha pra si
A norma culta só olha pra si
A norma culta é a direita, é o purismo

Vamos pra rua!

Vamos pra rua!

Vamos acabar com a norma culta

Vamos dinamitar a norma culta
Vamos pôr os gramáticos na cadeia
Num gueto de variantes estigmatizadas
Eu sou revisor, mas não sou purista
Estou do lado do povo, do povo!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Olavo de Carvalho errando o alvo

Nota do autor Olavo de Carvalho em seu livro “A Filosofia e seu Inverso” (2012).


A leitura da nota acima mostra que o autor — por desinformação ou tendenciosidade? — comete o mesmíssimo erro de várias pessoas que associam a instituição do Novo Acordo Ortográfico ao governo do Lula/PT como se isso fosse uma iniciativa da tal esquerda que se encontrava então no poder.

O Novo Acordo Ortográfico foi um tratado elaborado e discutido entre 1986 e 1990 pelo dicionarista Antônio Houaiss (por parte do Brasil) e representantes de outros países de língua portuguesa. Isso nem mesmo era algo original ou inovador porque copiava, em larga medida, o acordo ortográfico de 1945 (firmado entre Brasil e Portugal, mas seguido apenas pelos lusos porque os brasileiros se sentiram prejudicados e voltaram a usar o acordo anterior), no qual já eram propostas a abolição do acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e a extinção do trema, mudanças que já estavam em prática em Portugal desde a década de 1940. Como se vê, trata-se duma demanda histórica internacional, que atravessou gerações e que não foi, de modo algum, iniciativa mirabolante dum governo esquerdista em pleno século XXI.

É ÓBVIO que os interesses e as motivações por trás do Novo Acordo podem e devem, sim, ser questionados. Direito de contestar e criticar isso é algo que o Olavo de Carvalho tem — e aliás com muita razão —, porque foi um tratado porcamente aprovado pelos especialistas e que não passou por nenhuma revisão por aqueles que se encontravam à frente do negócio (a ABL de Evanildo Bechara). Nem os dicionaristas, gramáticos, linguistas e professores de português concordam com o modo como os articuladores atuais entregaram o texto do Acordo, que precisava duma série de correções, atualizações e adaptações. Entretanto, seu conteúdo não é obra de políticos e dirigentes (nem foi por eles discutido!), mas de academicistas; o decreto deu força de lei ao Acordo, mas NÃO o planejou e nem o elaborou. Era algo que já se encontrava redigido há 20 anos, na época em que Lula disputava uma eleição presidencial pela primeira vez.

Querer jogar a responsabilidade disso no governo em 2009, que só endossou e aprovou por meio de decreto o que qualquer outro governo teria feito naquele momento, é pura forçação de barra, para não dizer estupidez. O que faz Olavo de Carvalho acreditar que, estando Serra, Alckmin ou qualquer outro líder com formação escolar superior no lugar de Lula, o decreto não teria sido assinado do mesmíssimo jeito? Que justificativa, opinião ou embasamento técnico um outro presidente, no lugar do Lula, encontraria para barrar, em 2009, este acordo internacional e não assinar o decreto? Se os próprios acadêmicos que propuseram a decretação do acordo não apresentaram restrições e impedimentos, o que faz Olavo raciocinar que qualquer outro político que não fosse o Lula, de qualquer partido ou orientação, apresentaria?

Olavo de Carvalho está atirando no alvo errado. Se existe alguém a quem deve ser imputada a responsabilidade por um acordo ter sido instituído da forma como está, este alguém é a Academia Brasileira de Letras, representada pelo gramático Evanildo Bechara, que assumiu a "criança" deixada por Houaiss.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"Robô": rebeldia desde a origem do conceito


Cena da peça "R.U.R.", de Karel Čapek (1921)

“[...] ‘Robô’ é um dos poucos casos em que os Aurélios são capazes de registrar o dia e hora certa do nascimento de uma palavra que depois se tornaria corrente em todas as línguas. Ela foi dita pela primeira vez no dia 26 de janeiro de 1921, quando a peça 'R.U.R', do checo Karel Čapek, estreou no Teatro Nacional de Praga. No começo, ninguém sabia o que era um robô. Mas bastou olhar para os atores no palco e para o espectador na poltrona ao lado para que todo mundo descobrisse o que a palavra significava. ‘R.U.R.’ queria dizer ‘Robôs Universais de Rossum’ e contava a história de uma civilização tão avançada que prescindia completamente do esforço humano, físico ou mental. [...]. O trabalho sujo era feito por um exército de autômatos — enfim, uma espécie de proletariado mecânico. A diferença é que, na peça, os robôs se revoltavam e, para impedir futuros equívocos, exterminavam a raça humana. A hipótese parecia ligeiramente provável, mas naquele tempo ninguém tomava a ficção ao pé da letra.”

[“As obras-primas que poucos leram”, Heloísa Seixas, p. 173]

domingo, 27 de janeiro de 2013

Egbert


— O que é que o senhor estava esculpindo quando nós chegamos? — perguntou Dulcie. O velho tirou do bolso o seu toquinho entalhado.
— Não sei — disse o velhinho. — O que é ao certo, não sei; mas acho que deve ser um flatipus.
— E o que é um flatipus? — perguntou George.
— Não sei, mas espero que se pareça com alguma coisa assim.
— Mas então por que o chama de flatipus, se não sabe com que um flatipus se parece?
— Bem — respondeu o velhinho —, está mais parecido com um flatipus do que com qualquer outra coisa que eu já vi.

("A árvore dos desejos", de William Faulkner)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Das opções seculares

Século XVIII: fé ou razão?
Século XIX: criação ou evolução?
Século XX: capitalismo ou socialismo?
Século XXI: débito ou crédito?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Flagrante de irmandade

Hoje, no Big Box, me esbarrei com dois irmãozinhos – ela, duns 7 anos, dentro do carrinho; ele, duns 11, carregando-a. Ele:

— Que foi que meu pai pediu pra gente pegar mesmo?

Ela:

— Ah, pediu um monte de coisa, mas A GENTE NÃO VAI FAZER ISSO AGORA porque vamos correr com esse carrinho pelo mercado!

E partiram em disparada, derrubando e trocando coisas de lugar, naquela cumplicidade consentida e sem medo de ser feliz.