sexta-feira, 22 de março de 2013

Olavo de Carvalho errando o alvo

Nota do autor Olavo de Carvalho em seu livro “A Filosofia e seu Inverso” (2012).


A leitura da nota acima mostra que o autor — por desinformação ou tendenciosidade? — comete o mesmíssimo erro de várias pessoas que associam a instituição do Novo Acordo Ortográfico ao governo do Lula/PT como se isso fosse uma iniciativa da tal esquerda que se encontrava então no poder.

O Novo Acordo Ortográfico foi um tratado elaborado e discutido entre 1986 e 1990 pelo dicionarista Antônio Houaiss (por parte do Brasil) e representantes de outros países de língua portuguesa. Isso nem mesmo era algo original ou inovador porque copiava, em larga medida, o acordo ortográfico de 1945 (firmado entre Brasil e Portugal, mas seguido apenas pelos lusos porque os brasileiros se sentiram prejudicados e voltaram a usar o acordo anterior), no qual já eram propostas a abolição do acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e a extinção do trema, mudanças que já estavam em prática em Portugal desde a década de 1940. Como se vê, trata-se duma demanda histórica internacional, que atravessou gerações e que não foi, de modo algum, iniciativa mirabolante dum governo esquerdista em pleno século XXI.

É ÓBVIO que os interesses e as motivações por trás do Novo Acordo podem e devem, sim, ser questionados. Direito de contestar e criticar isso é algo que o Olavo de Carvalho tem — e aliás com muita razão —, porque foi um tratado porcamente aprovado pelos especialistas e que não passou por nenhuma revisão por aqueles que se encontravam à frente do negócio (a ABL de Evanildo Bechara). Nem os dicionaristas, gramáticos, linguistas e professores de português concordam com o modo como os articuladores atuais entregaram o texto do Acordo, que precisava duma série de correções, atualizações e adaptações. Entretanto, seu conteúdo não é obra de políticos e dirigentes (nem foi por eles discutido!), mas de academicistas; o decreto deu força de lei ao Acordo, mas NÃO o planejou e nem o elaborou. Era algo que já se encontrava redigido há 20 anos, na época em que Lula disputava uma eleição presidencial pela primeira vez.

Querer jogar a responsabilidade disso no governo em 2009, que só endossou e aprovou por meio de decreto o que qualquer outro governo teria feito naquele momento, é pura forçação de barra, para não dizer estupidez. O que faz Olavo de Carvalho acreditar que, estando Serra, Alckmin ou qualquer outro líder com formação escolar superior no lugar de Lula, o decreto não teria sido assinado do mesmíssimo jeito? Que justificativa, opinião ou embasamento técnico um outro presidente, no lugar do Lula, encontraria para barrar, em 2009, este acordo internacional e não assinar o decreto? Se os próprios acadêmicos que propuseram a decretação do acordo não apresentaram restrições e impedimentos, o que faz Olavo raciocinar que qualquer outro político que não fosse o Lula, de qualquer partido ou orientação, apresentaria?

Olavo de Carvalho está atirando no alvo errado. Se existe alguém a quem deve ser imputada a responsabilidade por um acordo ter sido instituído da forma como está, este alguém é a Academia Brasileira de Letras, representada pelo gramático Evanildo Bechara, que assumiu a "criança" deixada por Houaiss.