quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O advogado e a gramática: casa de ferreiro, espeto de pau

O projeto "Sinal do Saber" foi lançado em julho de 2013


Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão
e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho?

(Mateus 7: 3)


Lutero de Paiva, um advogado de Maringá, tomou a iniciativa de transmitir, por meio de faixas, várias lições gramaticais à população: Não existe a palavra menas, somente menos“O plural é troféus e não troféis”; Não é perca de tempo, mas perda de tempo”; O correto é casa geminada e não germinada”; O plural é cidadãos e não cidadões”. Você pode conferir aqui a reportagem do G1.

O projeto foi além dos sinaleiros e já toma conta até de canteiros de obra, onde se tenta corrigir a fala dos pedreiros: “mulher em vez de “muié”; betoneira em vez de “bitoneira”; vassoura em vez de bassoura”. Embora não exista motivo para questionar a boa vontade e a intenção do dotô,  é curioso notar que esse incômodo em relação aos (maus?) usos linguísticos parece não levar certos profissionais de nível superior a questionarem o próprio domínio sobre a norma culta que tanto desejam ver defendida e usada.

Ora, o advogado está implicando com os vícios de linguagem de outras classes (sociais e profissionais) ao mesmo tempo que não atenta para os vícios de sua própria classe, cujo juridiquês — ao contrário da linguagem popular e coloquial, que todo mundo consegue entender — se torna cada vez mais distante de uma linguagem objetiva, direta e inteligível! Se prestarmos atenção direitinho à questão, perceberemos que os usos formais — porém viciadosdos advogados são mais preocupantes e prejudiciais à comunicação e à praticidade do cotidiano do que os usos informais dos pedreiros que desejam corrigir.

É possível notar também certo ranço de indisposição com os usos populares. Não tenho nada contra o potencial criativo do juridiquês, mas se os advogados se reservam o direito de criar neologismos como inobstante e presentante, por que se incomodar com variações surgidas entre falantes de âmbitos menos cultos?


Lutero quer combater o uso dos "vícios de linguagem"

Ora, o chicote do rigor deve ser compartilhado com todos. O que eu recomendo é que ele aproveite a oportunidade de, ao mesmo tempo que tenta esclarecer os incultos sobre as formas ditas corretas,  também elaborar as seguintes faixas: 

Advogado, você sabia que o correto é uma vez que e não de vez que ou vez que?

O correto é por via de regra e não via de regra.

A palavra alegativa não existe, somente alegação.

Não se diz lado outro e sim por outro lado.

Face a é expressão errada. Use em face de ou em face a.

O verbo da expressão no que pertine não existe!

Essas são apenas algumas sugestões. Talvez dê um trabalhão criar banners para cada vício advocatício, mas garanto que tal medida, se levada adiante, se mostraria tão útil quanto aquela tomada recentemente pelo dotô.

Vale observar que o ímpeto de Lutero não é novidade em seu meio. Durante a primeira década do século XX, o (rufem os tambores!) grande jurista Ruy Barbosa travou um histórico duelo gramatical com seu antigo mestre, o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro: a chamada revisão do Código Civil (1902-1905), considerada por Leite (1999, p. 76) “o maior símbolo do purismo linguístico do português do Brasil”, é um episódio que ilustra perfeitamente a manutenção de um critério de correção que não se pautasse pela forma (falada e) escrita no Brasil, tal era o apego ao português lusitano.


Carneiro Ribeiro (1839–1920). Segundo Piacentini,
"o maior gramático que o Brasil já teve".


Ruy, chamado por Monteiro Lobato de canto de cisne da língua portuguesa”, era defensor fervoroso da “ideia de uma língua em uso por autores portugueses canônicos” (MARIANI, 2011, p. 253) e combateu a redação dada ao projeto do Código Civil, então abonada por Carneiro Ribeiro, que defendia a normatização de peculiaridades do português falado no Brasil  (em resposta a seu ex-discípulo, o gramático afirmou que “temos, logo, razão de dizer: o purismo exagerado, intransigente, é impossível, perante o estudo histórico das línguas”). Até hoje, a famosa Réplica (1902) de Ruy é lembrada como espécie de obra-prima da defesa do português culto, mas não se pode ignorar o fato de que sempre lhe foi atribuída uma autoridade e um conhecimento dos quais carecia (como o saber filológico, por exemplo).

Você duvida? Os fãs do Águia de Haia odiarão ler as próximas linhas: “É surpreendente que ele mesmo [Ruy Barbosa] incida em numerosas incorreções que implacavelmente condenava, como, num dos excertos [...] citados: Escasseava-lhe [...] as luzes indispensáveis’, ou, incansável caçador de cacófatos, ao defender-se das acusações de que também os cometia: ‘Sendo, porém, a coisa desprezível [...] eu me não ocuparia [...]. Além disso, Barbosa “se colocava na posição de quem decide o que é vernáculo e o que não o é” (MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira, vol. V, 1879-1914, p. 170).

Como se pode constatar, trata-se de um mal histórico da classe advocatícia.