sábado, 30 de abril de 2005

Otimizando o pessimismo

Meu poeta preferido disse certa vez: "Otimismo: Filosofia forçada".

Pra mim nunca foi muito difícil concordar com ele.

Sempre que me acusam de pessimista, respondo que antes disso sou realista, e que só afirmo a condição "péssima" de uma situação quando dou conta da impossibilidade de sua "otimização".

Por isso, prefiri recorrer à solução encontrada por Grasmci:
Sou um pessimista pela inteligência mas um otimista por desejo.

domingo, 24 de abril de 2005

Se você não vai até a exclusão, a exclusão vem até você

Um toque solitário de interfone na tarde de domingo - alguma visita inesperada?
Sim... um pedinte.

- Moço, tem comida aí pra mim? Qualquer coisa que cê tiver aí serve... comida, uns 50 centavos, ticket, vale-transporte... po'jogar da janela que eu pego daqui dibaixo...

- Pô amigão, tô sem nada aqui...

- Qualquer coisa... joga da janela! qualqué coisinha que cê tivé aí...

- Hoje não tenho nada aqui pra te arrumar, companheiro.... fica pra próxima, tá bom?

- Tá bom...

Acredite, domingo que vem ele retorna. Será que foi aquele que ajudei da última vez?
Não sei... mas tenho quase certeza que tá todo o resto da família sentada/deitada ali pela portaria. Enquanto isso, outros altos toques de interfones se fazem ecoar pelo bloco...

A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto...
("Miséria", de Arnaldo Antunes, Sérgio Brito e Paulo Miklos)

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Eu vi a cara da morte e ela estava viva


Setembro de 2003. Saí depois das 23h do campus porque o filme passado na aula de Introdução à Literatura era grande. Tô atravessando a SQN 405. De longe, avistei um cachorro branco. Não era um vira-lata qualquer. Era a porra dum pitbull. Ele ficava pulando e dando voltas, soltinho, observado de longe pelo seu dono. De onde estava, aquela coisa branca já havia me avistado. Olhava, encarava-me várias vezes momentaneamente, mas logo em seguida fez como se houvesse me ignorado. Foi a deixa pra que eu traçasse uma rota paralela e não ficasse na reta dele. Não adiantou. Ele continuava pulando, dando voltas e observado pelo dono, mas foi se aproximando. Olhei pra outro lado, fingi que não estava nem aí, mas não teve jeito. Ao passar por uma distância de dez metros dele, virei apenas os olhos rapidamente pra ver se estava me encarando...




Estava.




Aquele olhar durou toda a eternidade.




Se o diabo existe, ele esteve ali, diante de mim. Lúcifer, Belzebu, Satanás... o olhar fixo daquele cachorro branco imóvel me hiptonizava e me dizia:

- Boa noite, desgraçado. Vim buscar sua alma.

Pensei que não tivesse mais que alguns segundos de vida. Não tenho nada contra morrer, pode ser hoje, pode ser mês que vem; acredito até na imortalidade da alma. O foda é ter que morrer dolorosamente, sofrer intensa e demoradamente antes do último suspiro. Nesse momento o dono parece ter se tocado e resolve chamá-lo: "Vem pra cá, Rex, volta!" (digo "Rex" porque a emoção do momento me impediu permanentemente de lembrar do nome do demônio). Mas ele continuou em meu encalço. Apesar de tudo, não deixei que a emoção mais terminal que já tive na vida tomasse o lugar da razão. Lembrei-me do que li certa vez em uma revista sobre como proceder ao ser abordado por um pitbull: diminua a velocidade do seu andar até parar. Abaixe a cabeça e não olhe mais pra ele, porque ele encara isso como um desafio e parte pro ataque logo em seguida. Vire-se vagarosamente na direção contrária e continue caminhando vagarosamente. Fiz tudo conforme recomendava a revista, e parecia que estava dando certo. Exceto por um detalhe: ele continuava a me seguir, vagarosamente... e rosnando. Baixinho. Era também um rosnado incisivo, que dizia: "Quero sua alma, AGORA, e nada nesse mundo (nem mesmo o meu dono que tá ali me chamando) me fará desistir de você, maldito que cruzou meu caminho". Minha alma nada, ele queria era o meu corpo, minha carne, meus ossos. Continuei andando, suando frio e calculando quantos segundos ainda faltava pra pensar/fazeralgumacoisa/rezar/gritarporsocorro até que estivesse finalmente despedaçado. Finalmente, não ouço mais rosnado algum. Mas só tive coragem de olhar pra trás após mais de 100 metros percorridos. Na verdade, nem me lembro de ter olhado pra trás até chegar em casa. A qualquer momento, ele soltaria o rosnado seguido do latido definitivo, antes de chegar até minha jugular. Mas não o fez. Já devia estar era longe, recolhido no apartamento com seu dono.

Acredite: uma leitura de revista na barbearia antes do corte de cabelo pode salvar sua vida. Ou pelo menos fazê-la durar mais um pouquinho até algum próximo encontro inevitável.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Revista Universitária

Fim de festa.
23:30h... os seguranças do campus até que enrolaram bastante, deixando a gente se divertir mais um pouquinho no mezanino sul... o vinho já tinha acabado, a cerva idem, mas a música que saía do velho toca-discos do DCE inda rolava alta... uma dupla veio nos abordar, avisando que já havia passado da hora de desligar o som. Um dos letrados, enputecido - e bêbado - revoltou-se contra a interrupção inadmissível de um vinil do Ira!:

- Não, não, num vô abaixá não! Num vô, num vô! Que qui há, a gente estuda aquiblábláblábláblá...

Tive vontade de ir amansar os ânimos do meu camarada, mas já fazia 5 minutos que eu jazia morgado num dos sofás instalados no mezanino. "Deixa pra lá, peixe... tão só cumprindo o trabalho deles, cria caso não, pô...", pensei comigo. Mas nem me mexi.

Daqui a pouco, vem a Juju dando um tapão no sofá:

- 'corda, mininu! 'bora! ajuda gente a levar as coisas pro CA.

Peguei o micro-system, os CDs, os vinis, os trocentos exemplares de zines que sobraram e os acompanhei de volta pro nosso cantinho na UnB. E pensei em tudo o que rolou... e não rolou. Os improvisos, o pouco gelo, toda aquela gente de tudo que é curso misturada me fazendo lembrar os tempos de ocupe-se, gente fazendo novas amizades - e novos rolos (um sortudo da Tradução não esperava ficar com uma bela calourinha de PBSL), as saídas emergenciais de carro rumo ao mercado pra suprir a sede etílica da calourada, recém-saída de duas provas no mesmo dia, os vários copos que deixei de beber por causa do tempo que perdi fazendo papel de promoter da festa do CA e falando pelos cotovelos... as amizades que não apareceram... bem como uma promessa de amizade que também não deu as caras mas que tava brindando no bar mais próximo do campus... Bom, deixa pra lá. Pronto. Pode fechar o CA, Juju, vamos.

Saindo pela ala sul, quase chegando no portão, eis que:

- Ei, pxiu! Faz favo"r"...

Era um dos seguranças.

- Algum problema, amigo?

- Preciso revistar sua mochila.

De fato, não era uma mochila qualquer. Tratava-se de uma Wolnner, daquelas dignas de alpinistas profissionais sagazes. Paguei uma nota nela, mas valeu a pena. E lá estava ela, cheia, inflada, inchadona mesmo, como se eu fosse escalar a Torre de TV. Certamente chamou a atenção dele.

Abri o mochilaço pra ele. Um caderno, um livro, uma máquina fotográfica... e zines.
Muitos zines. Dezenas deles.

- Só tem zine aí... qué um procê?

- Quê?

- É... sacripantas, zine de Letras... pó ficá pra você.

- Não... brigado. Ok. (pode ir)

Quinta-pra-sexta, 23:59:43... sofri minha primeira revista universitária - só por causa das revistas universitárias.

(Quêisso maluco, agora qu'eu notei... nem tô de ressaca: esqueci de beber.)

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Prove que tem vida e atravesse

Saio do HUB rumo à faixa da L3. Estendo o braço.
Passa o primeiro devagarzinho... vem o segundo, na mesma velocidade, e indiferença.
Deixa eu estender mais esse braço. Mais um... três, vem vindo outro, quatro... cinco.
Cinco. Ninguém parou. Cada um foi seguindo a indiferença do outro. Tem alguns que ainda olham pra você ao cruzarem a faixa, com uma expressão de surpresa, como quem quer dizer "ih, nem te vi".

Finalmente cruzando a faixa após deixar passar os que têm preferência, lá está a enorme faixa fixada pelo Decanato de Assuntos Comunitários:

"PEDESTRE: DÊ O SINAL DE VIDA E ATRAVESSE".

E ainda me põem como o sujeito a ser advertido.

Ué? Dei meu sinal de vida - várias vezes - mas não pude atravessar... então quer dizer que além de pedestre todo-errado (já que a faixa adverte a mim e não o motorista), para o trânsito eu não passo mesmo de um morto.

sábado, 2 de abril de 2005

Ilustre (des)conhecido que faz diferença

Hoje de manhã saí de casa e fui descendo pelos blocos do comércio local de onde moro em direção à padaria tomar um café.

Da minha casa até a panificadora, são vários Salões de Beleza.
Dois ou mais em cada bloco.

Ao passar pelo primeiro salão, ouvi:

“... o Jean foi várias vezes pro paredão...”

Passando pelo segundo, uma senhora dizia:

“....mas o Jean perdoou a Pink...”

Mais adiante, em outro salão:

“...a Tati também torceu pelo Jean...”

Quem quer que seja, esse Jean tem feito uma enorme diferença na vida d(ess)as pessoas.

Gostaria de conhecê-lo