sábado, 11 de maio de 2013

Da reprovação à revolução: uma lição histórica


Num documento de 1817, ignorado pela maioria dos historiadores, Frei Caneca redigiu uma petição a D. João VI defendendo-se da acusação de participar da Revolução Pernambucana (da qual ele realmente NÃO tomou parte, embora isso seja disseminado em livros e sites).

Confira o que ele revela no trecho sublinhado da petição:

(MOREL, Marco. Frei Caneca: entre marília e a pátria, 2000, p. 48)

Moral da História (sim, da Historiografia mesmo): evite reprovar seu aluno por causa de gramática. Amanhã, ele pode furar o pneu do seu carro... ou te acusar de conspiração.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Deputados devem decidir nesta semana se darão ou não direito de acento ao cu; alguns deles desejam estender o direito ao nu


"Estilisticamente, um acento no cu deixa a palavra mais elegante, expressiva e incisiva" disse o deputado Analstácio Fiofóvsky (PSCU). "Imagine mandar alguém tomar no 'cu', assim, sem acento... perde-se toda a violência ortográfica, priva-se o interlocutor de sentir toda a carga semântica do xingamento", complementou. "Já o acento no nu destaca seu exibicionismo e reforça o tom de sua devassidão", observou Anúsio Nunes, deputado do PSDBunda.

A polêmica questão ortográfica, que vem atravessando séculos, deverá ser finalmente votada nesta cuarta-feira. Segundo dados do IBGE, mais de 90% da população (e isso inclui parcela significativa de usuários da norma CUlta) coloca acento no cu; um número bem menor (40%) gosta de acentuar o nu. Entretanto, os que assim procedem incorrem em crime de lesa-ortografia, punível com multa e pena de 1 a 2 anos de leitura forçada.
(Agência Estado)

sábado, 4 de maio de 2013

Um rato de sebo em êxtase


Uma litografia de Daumier intitulada Un bouquiniste dans l'ivresse ("Um rato de sebo em êxtase"), de 1844, ilustra perfeitamente a fascinação bibliofílica pela raridade. Ela representa um homem folheando um pequeno volume e dizendo, com ar exaltado, a outro aficionado: "Nada se compara à minha alegria... acabo de encontrar, por cinquenta escudos, um Horácio impresso em Amsterdã em 1780... essa edição é excessivamente preciosa: cada página é repleta de erros!".
(BONNET, Jacques. Fantasmas na biblioteca: a arte de viver entre livros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 31)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pelo direito à ternura textual

Capa do livro O direito à ternura

“A ciência, que é também uma modalidade da linguagem, costuma cifrar seus informes em certo modelo frio e burocrático, sem que isso queira dizer que a verdade não pode assumir a forma sugestiva de uma expressão calorosa e acariciadora. A frialdade do discurso científico não é outra coisa senão uma expressão das lógicas de guerra que se inseriram na geração do conhecimento, sem que possamos converter essa deformação histórica num único parâmetro de vitalidade.

Como quiseram uma vez os retóricos e os sofistas, o discurso deve vir carregado de emoção e astúcia persuasiva, pois ali também se decide a veracidade ou falácia dos enunciados. Independentemente da forma que assumam – quer seja a breve e telegráfica dos informes que se publicam nas revistas especializadas, a monótona das teses de graduação ou a amena dos livros de divulgação – os discursos científicos mostram sua fertilidade cognitiva quando conseguem explicitar os pressupostos sobre os quais se assentam, sem assumir a forma de uma enunciação dogmática.

É, pois, a capacidade de gerar crítica e reflexão e não o empobrecimento discursivo e literário a característica que permite distinguir o pensamento científico da repetição dogmática e da charlatania. [...] não podemos deixar de afirmar que, para nós, o discurso é também um agora que pode encher-se de ternura, sendo possível acariciar com a palavra sem que a solidez argumental sofra detrimento por fazer-se acompanhar de vitalidade emotiva.”

(RESTREPO, Luís Carlos. O direito à ternura. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998, p. 17)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Se Cazuza fosse revisor

http://www.youtube.com/watch?v=cBAZDJmbUb0


A norma culta fede
A norma culta quer ditar língua
Enquanto houver norma culta
Não vai haver poesia

Pobre de mim que vivo da norma culta

Sou revisor mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal

A norma culta não dá valor à fala

Da vendedora de chicletes
A norma culta só olha pra si
A norma culta só olha pra si
A norma culta é a direita, é o purismo

Vamos pra rua!

Vamos pra rua!

Vamos acabar com a norma culta

Vamos dinamitar a norma culta
Vamos pôr os gramáticos na cadeia
Num gueto de variantes estigmatizadas
Eu sou revisor, mas não sou purista
Estou do lado do povo, do povo!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Olavo de Carvalho errando o alvo

Nota do autor Olavo de Carvalho em seu livro “A Filosofia e seu Inverso” (2012).


A leitura da nota acima mostra que o autor — por desinformação ou tendenciosidade? — comete o mesmíssimo erro de várias pessoas que associam a instituição do Novo Acordo Ortográfico ao governo do Lula/PT como se isso fosse uma iniciativa da tal esquerda que se encontrava então no poder.

O novo Acordo Ortográfico foi um tratado elaborado e discutido entre 1986 e 1990 pelo dicionarista Antônio Houaiss (por parte do Brasil) e representantes de outros países de língua portuguesa. Isso nem mesmo era algo original ou inovador porque copiava, em larga medida, o acordo ortográfico de 1945 (firmado entre Brasil e Portugal, mas seguido apenas pelos lusos porque os brasileiros se sentiram prejudicados e voltaram a usar o acordo anterior), no qual já eram propostas a abolição do acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e a extinção do trema, mudanças que já estavam em prática em Portugal desde a década de 1940. Como se vê, trata-se duma demanda histórica internacional, que atravessou gerações e que não foi, de modo algum, iniciativa mirabolante dum governo esquerdista em pleno século XXI.

É ÓBVIO que os interesses e as motivações por trás do novo Acordo podem e devem, sim, ser questionados. Direito de contestar e criticar isso é algo que o Olavo de Carvalho tem — e aliás com muita razão —, porque foi um tratado porcamente aprovado pelos especialistas e que não passou por nenhuma revisão por aqueles que se encontravam à frente do negócio (a ABL de Evanildo Bechara). Nem os dicionaristas, gramáticos, linguistas e professores de português concordam com o modo como os articuladores atuais entregaram o texto do Acordo, que precisava duma série de correções, atualizações e adaptações. Entretanto, seu conteúdo não é obra de políticos e dirigentes (nem foi por eles discutido!), mas de academicistas; o decreto deu força de lei ao Acordo, mas NÃO o planejou e nem o elaborou. Era algo que já se encontrava redigido há 20 anos, na época em que Lula disputava uma eleição presidencial pela primeira vez.

Querer jogar a responsabilidade disso no governo em 2009, que só endossou e aprovou por meio de decreto o que qualquer outro governo teria feito naquele momento, é pura forçação de barra, para não dizer estupidez. O que faz Olavo de Carvalho acreditar que, estando Serra, Alckmin ou qualquer outro líder com formação escolar superior no lugar de Lula, o decreto não teria sido assinado do mesmíssimo jeito? Que justificativa, opinião ou embasamento técnico um outro presidente, no lugar do Lula, encontraria para barrar, em 2009, este acordo internacional e não assinar o decreto? Se os próprios acadêmicos que propuseram a decretação do acordo não apresentaram restrições e impedimentos, o que faz Olavo raciocinar que qualquer outro político que não fosse o Lula, de qualquer partido ou orientação, apresentaria?

Olavo de Carvalho está atirando no alvo errado. Se existe alguém a quem deve ser imputada a responsabilidade por um acordo ter sido instituído da forma como está, este alguém é a Academia Brasileira de Letras, representada pelo gramático Evanildo Bechara, que assumiu a "criança" deixada por Houaiss.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"Robô": rebeldia desde a origem do conceito


Cena da peça "R.U.R.", de Karel Čapek (1921)

“[...] ‘Robô’ é um dos poucos casos em que os Aurélios são capazes de registrar o dia e hora certa do nascimento de uma palavra que depois se tornaria corrente em todas as línguas. Ela foi dita pela primeira vez no dia 26 de janeiro de 1921, quando a peça 'R.U.R', do checo Karel Čapek, estreou no Teatro Nacional de Praga. No começo, ninguém sabia o que era um robô. Mas bastou olhar para os atores no palco e para o espectador na poltrona ao lado para que todo mundo descobrisse o que a palavra significava. ‘R.U.R.’ queria dizer ‘Robôs Universais de Rossum’ e contava a história de uma civilização tão avançada que prescindia completamente do esforço humano, físico ou mental. [...]. O trabalho sujo era feito por um exército de autômatos — enfim, uma espécie de proletariado mecânico. A diferença é que, na peça, os robôs se revoltavam e, para impedir futuros equívocos, exterminavam a raça humana. A hipótese parecia ligeiramente provável, mas naquele tempo ninguém tomava a ficção ao pé da letra.”

[“As obras-primas que poucos leram”, Heloísa Seixas, p. 173]

domingo, 27 de janeiro de 2013

Egbert


— O que é que o senhor estava esculpindo quando nós chegamos? — perguntou Dulcie. O velho tirou do bolso o seu toquinho entalhado.
— Não sei — disse o velhinho. — O que é ao certo, não sei; mas acho que deve ser um flatipus.
— E o que é um flatipus? — perguntou George.
— Não sei, mas espero que se pareça com alguma coisa assim.
— Mas então por que o chama de flatipus, se não sabe com que um flatipus se parece?
— Bem — respondeu o velhinho —, está mais parecido com um flatipus do que com qualquer outra coisa que eu já vi.

("A árvore dos desejos", de William Faulkner)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Das opções seculares

Século XVIII: fé ou razão?
Século XIX: criação ou evolução?
Século XX: capitalismo ou socialismo?
Século XXI: débito ou crédito?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Flagrante de irmandade

Hoje, no Big Box, me esbarrei com dois irmãozinhos – ela, duns 7 anos, dentro do carrinho; ele, duns 11, carregando-a. Ele:

— Que foi que meu pai pediu pra gente pegar mesmo?

Ela:

— Ah, pediu um monte de coisa, mas A GENTE NÃO VAI FAZER ISSO AGORA porque vamos correr com esse carrinho pelo mercado!

E partiram em disparada, derrubando e trocando coisas de lugar, naquela cumplicidade consentida e sem medo de ser feliz.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Senador propõe adiar vigência do Novo Acordo Ortográfico para depois do Fim do Mundo


(Agência Estado) Tudo indica que o Novo Acordo Ortográfico não entrará em vigor tão cedo. "Deixemos isso para depois de 21/12. Já pensou se formos discutir se a grafia ideal é 'fim do mundo' ou 'fim-do-mundo', sem hífen ou com hífen? O mundo não vai acabar nunca!" declarou o senador Cyro Miranda (PSDB-GO). "Esse adiamento também é importante para discutirmos outras questões ortográficas ainda não contempladas pelo Novo Acordo em vigor, como a inserção dum acento agudo no cu. Sempre quis colocar um acento no cu. 'Cu' sem acento fica parecendo símbolo químico da Tabela Periódica!".

sábado, 24 de novembro de 2012

Sherlock Holmes e o crime de lesa-ortografia



— Foi um erro furtivo, Watson. Ninguém viu. Nem o autor, nem o revisor, nem o diagramador, nem o editor, nem seu assistente, nem os leitores. Passou batido por todos. Se ao menos alguém o tivesse identificado antes da publicação, teria evitado a consumação desse terrível crime de lesa-ortografia.

— E o que foi feito a respeito até agora, Holmes? Já temos algum suspeito?

— A Scotland Yard tem concentrado todas as buscas a um fugitivo: o estagiário que esteve vadiando pela editora durante toda a composição da obra. Ele sumiu logo após a publicação e seu paradeiro continua ignorado.

— Mas presumir que a culpa seja sempre do estagiário nesses casos é uma solução um tanto preguiçosa e oportunista, não?

— Obviamente, Watson, e deixa de lado a questão mais intrigante: o poder de invisibilidade de um erro durante todo o processo de editoração. Como ele conseguiu se manter ali, maquiado e imperceptível, durante todo esse tempo? Trata-se de um mistério que atravessa séculos de história tipográfica e editorial, permanecendo gloriosamente indecifrável.

["Um estudo do erro", Arthur Conan Doyle, 1887, p. 171]

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Previsão poética do tempo (DF)














Outono ou inverno, clima cármico eterno:
Lá vem manhã fria, o céu todo opaco
Chegou meio-dia, retire o casaco
À noite resfria, esse tempo é um saco

Se nuvem aparece, então fica esperto:

Dia amanhece com céu encoberto
Nublou, esfriou; veste a jaqueta
Chove não, brou, é só névoa seca

Abafa, esquenta, vira uma estufa;

Do nada, só venta, pancada de chuva
Que logo se acaba, qual fogo de palha
E volta o solzaço: calor e mormaço

Nem reclame mermão, é só primavera

Já, já é verão; quando menos se espera
tem pista alagada, cheia de barro
com gente estressada e batida de carro

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Filosofia zumbi

A vida da gente é como o seriado The Walking Dead: todos aqueles problemas que parecem ter se encerrado ressurgem repentinamente, meio vivos, do nada, atacando-nos a qualquer momento do dia ou da noite e obrigando-nos a fugir deles diariamente. Algumas pessoas se deixam consumir por esses problemas; outras acabam se tornando (mais) um desses problemas. E tudo indica que, um dia, o mundo será inteiramente dominado por esses problemas – até que não haja ninguém mais são e consciente para dar cabo deles.

domingo, 19 de agosto de 2012

Um tanto difícil, mas não impossível


Zilhões de estrelas no céu e você quer chegar àquela:
a de nome mais bonito,
a mais comprometida com o infinito.

Zilhões de almas e você deseja aquela:
de todas, a mais distante;
de todas, a mais errante.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Para um amor improvável

Te quero, querida
E só meu tesão sabe o quanto;
Te espero, querida
E só meu coração sabe até quando.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Versinhos de R$ 1,00

Talvez não esteja certa
Nem faça ideia ainda
Do coração que aperta
Do quanto a quero, minha linda.


Você nem suspeita
Mas um dia saberá:
Quem hoje te espreita
Tua boca beijará.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cecília adaptada à era virtual



Eu curto porque o botão de curtir existe
E a timeline está em pauta.
Não sou stalker nem hacker:
Sou internauta. 

Sei que curto. E o curtir é tudo.
Tem acesso eterno a conexão ilimitada.
E um dia sei que estarei off-line:
– mais nada.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Na rede com Maiakovski

Na primeira noite eles se aproximam
e fecham o Megaupload
da nossa rede.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:
bloqueiam os compartilhadores P2P,
tiram links para torrents do ar,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais FDP deles
entra sozinho em nossa casa,
confisca nossos PCs, e,
conhecendo nossa senha,
apaga todos nossos arquivos.
E, como não compartilhamos nada, já não podemos postar nada.