domingo, 22 de setembro de 2013
Um curso maldito desde sempre
“[...] ocorreram nessa relação alguns problemas. [...] um segundo problema se dava os gênios de Sr. Allan e de Edgar Allan Poe. O Sr. Allan gostava de coisas que o poeta não gostava: queria que estudasse Direito, Poe preferia as Letras [...].”
(Edgar Allan Poe: um homem em sua sombra, Ricardo Araújo, p. 33)
Moral da HISTÓRIA: Nada mudou até hoje. Desde sempre, pais querem que os filhos façam Direito ou Medicina, e não esses malditos cursinhos de Letras.
sábado, 31 de agosto de 2013
Contra médicos estrangeiros
“Os gregos são uma raça que não vale nada, não se consegue ensinar nada a eles. Ao conceder sua literatura para nós, eles irão destruir toda a nossa existência. Esse processo será ainda mais rápido se eles enviarem seus médicos, pois estes estão conspirando para matar, com sua medicina, qualquer um que não seja grego. Eles nos fazem pagar pelo tratamento para que depositemos neles toda a nossa confiança, apenas para nos arruinar mais facilmente.” (Catão, o Velho, 234 a.C. – 149 a.C.)
(citação extraída de McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)
(citação extraída de McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)
Hic habitat felicitas
HIC HABITAT FELICITAS ("A felicidade mora aqui"). Essa frase com a ilustração foi colocada originalmente no centro do arco sobre o forno de um padeiro de Pompeia para espantar os maus espíritos. No começo do século XX, a placa foi transferida, juntamente com dúzias de artefatos que hoje em dia dificilmente seriam considerados ofensivos, para o "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu Arqueológico de Nápoles. A mesma inscrição, seguida de nil intret mali ("Que nenhum mal entre"), mas sem a ilustração, foi encontrada em um mosaico na entrada de uma casa de Salisburgo. Restaram muitos anéis decorados com um símbolo fálico daquela época, que eram usados por crianças como amuletos de proteção.
(McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Nunca tantos leram tão pouco (1949)
“Nunca houve tanto automóvel circulando, tanto rádio novelizando, tanta eletrola domesticando música, e nunca se vendeu tanta geladeira elétrica, tanta vassoura elétrica, tanta lavadeira elétrica, e tantas outras maravilhas, elétricas ou não, que representam o sonho de todo o mundo e que constam de todo o orçamento pré ou post-nupcial. [...] Enquanto livrarias se fecham e editores mudam de profissão, os cinemas, os auditórios de rádio (a Cr$ 15,00 por cabeça) e os estádios esportivos vivem repletos e prosperam.”
(ROSENBLATT, Maurício. Nunca tantos leram tão pouco. Jornal de Letras. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1949)
(ROSENBLATT, Maurício. Nunca tantos leram tão pouco. Jornal de Letras. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1949)
sábado, 27 de julho de 2013
PM divulga imagem de manifestante que atentou contra a norma-padrão durante protesto
RIO – A Polícia Militar divulgou hoje imagem, com melhor visualização, em que um manifestante faz claramente uso ilegal de concordância verbal. Conservadores apontam crime de lesa-gramática: de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, o falante deveria ter redigido "não se fazem..." em vez de "não se faz" no cartaz que empunhava.
Linguistas saem em defesa do acusado e alegam que o falante de português entende o "se" como índice de indeterminação do sujeito. A PM rebate argumentando que o sujeito não está indeterminado coisa nenhuma, pois o elemento já foi identificado.
Vários manifestantes declararam que o atentado não teria sido cometido pelo falante P1, mas sim por um falante P2 (agente infiltrado da polícia) que, momentos antes do protesto, trocou o cartaz do manifestante com outro redigido em outra variante linguística a fim de provocar discórdia gramatical e a ira da classe linguística conservadora. Entretanto, de acordo com a corporação, o P2 não domina nenhuma das variantes linguísticas envolvidas e jamais poderia, portanto, ter cometido um ato tão bem pensado como esse.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
De poesia do socialismo português a canção do rock brasileiro
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| Reinaldo Ferreira (1922-1959): joia literária a ser (re)descoberta |
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (1922–1959) foi um poeta português singular. Nunca teve um só livro publicado em sua breve vida, passada toda em Moçambique, mas deixou um legado tão marcante e significativo que até levou críticos literários a compará-lo estilisticamente a Fernando Pessoa. A descrição mais recente de sua vida e obra foi publicada no livro Poesia do Socialismo Português (2010).
Sua obra completa — que jamais contou com uma publicação impressa na íntegra — pode ser visualizada inteiramente neste link.
Apesar de certo ostracismo (talvez seja um poeta mais lido por autores que por leitores), alguns poemas de Reinaldo Ferreira foram musicados por compositores portugueses. Curiosamente, um deles foi musicado (tendo seu texto levemente modificado) no Brasil, em meados dos anos 80, por Edgard Scandurra, guitarrista da banda IRA!, que lançou a música em 1988 no disco Psicoacústica (elogiado pela crítica, mas fracasso de vendas):
Receita para se fazer um herói*
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
Em tamanho natural.
Embebece-se-lhe a carne,
De um jeito irracional,
Como a fome, como o ódio.
Depois, perto do fim,
Levanta-se o pendão,
E toca-se o clarim.
Serve-se morto.
A canção pode ser ouvida aqui.
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| O amado e odiado LP "Psicoacústica", lançado em 1988 |
Por causa dum soldado picareta do Exército, um poema português se transformou num sucesso de rock radiofônico no Brasil dos anos 80. E, sem essa picaretagem e a posterior “musicação” do poema, provavelmente eu estaria ignorando até hoje a existência de Reinaldo Ferreira e sua interessante poesia.
* O título original do poema é Receita de herói; seu texto original (uma referência implícita às receitas culinárias) é: "Tome-se um homem feito de nada/ Como nós, em tamanho natural/ Embeba-se-lhe a carne/ Lentamente/ De uma certeza aguda, irracional/ Intensa como o ódio ou como a fome./ Depois, perto do fim/ Agite-se um pendão/ E toque-se um clarim./ Serve-se morto."
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Origem e história das minúsculas
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| Trecho do Manuscrito de Freising (séc. X), um dos mais belos exemplos de minúscula carolíngia |
As maiúsculas, todo mundo sabe: primeiro apareceram nas fachadas e nos monumentos de Roma no século I como elemento decorativo que enfatizava o poder dos romanos no começo da era cristã. Mas e a caixa-baixa? Aconteceu no século VIII, sob o reinado de Carlos Magno, o rei do mundo naquela época. Carlos Magno convocou o escriba-mor da corte, o Bispo Alcuin, na cidade de York, e encomendou-lhe uma letra que fosse bela, legível e fácil de escrever.
Alcuin criou uma letra maravilhosa chamada “Minúscula de Carlos Magno” ou Minúscula Carolíngia. Essa letra passou a ser obrigatória para todos os escritos do rei, que queria assim fazer com que todos lessem a Bíblia do mesmo jeito, dando-lhe uma interpretação padronizada (a igreja sempre por trás dos escribas). A Minúscula Carolíngia era usada em todas as situações, o que na verdade foi a primeira identidade visual racionalmente criada com objetivos pré-estabelecidos. Hoje em dia, é fácil datar os livros dessa época só pela sua letra. Mas a grande vitória da Carolíngia foi na Renascença, quando o alfabeto foi todo redesenhado. O padrão para as maiúsculas foi a Capitalis Romana do século I, e o padrão adotado para as minúsculas foi a carolíngia que, por um erro de datação, foi classificada como contemporânea da Capitalis, setecentos anos mais velha. Então, a maiúscula é filha da arquitetura clássica de Roma [...]. E a minúscula é filha da mão do bispo Alcuin, o grande calígrafo de Carlos Magno.
(GIL, Cláudio. De onde vieram as minúsculas. In ORCADES, Carlos M. (Org.) Almanaque Tipográfico Brasileiro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008, p. 16).
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Se Keynes fosse linguista
“Os revisores práticos, que se acreditam livres de qualquer influência intelectual, são geralmente escravos de algum gramático morto.”
(Keynes, John Maynard. A Teoria Geral da Gramática, do Erro e da Correção. Londres: Macmillan Press, 1936)
sábado, 11 de maio de 2013
Da reprovação à revolução: uma lição histórica
Num documento de 1817, ignorado pela maioria dos historiadores, Frei Caneca redigiu uma petição a D. João VI defendendo-se da acusação de participar da Revolução Pernambucana (da qual ele realmente NÃO tomou parte, embora isso seja disseminado em livros e sites).
Confira o que ele revela no trecho sublinhado da petição:
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| (MOREL, Marco. Frei Caneca: entre marília e a pátria, 2000, p. 48) |
Moral da História (sim, da Historiografia mesmo): evite reprovar seu aluno por causa de gramática. Amanhã, ele pode furar o pneu do seu carro... ou te acusar de conspiração.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Deputados devem decidir nesta semana se darão ou não direito de acento ao cu; alguns deles desejam estender o direito ao nu
"Estilisticamente, um acento no cu deixa a palavra mais elegante, expressiva e incisiva" disse o deputado Analstácio Fiofóvsky (PSCU). "Imagine mandar alguém tomar no 'cu', assim, sem acento... perde-se toda a violência ortográfica, priva-se o interlocutor de sentir toda a carga semântica do xingamento", complementou. "Já o acento no nu destaca seu exibicionismo e reforça o tom de sua devassidão", observou Anúsio Nunes, deputado do PSDBunda.
A polêmica questão ortográfica, que vem atravessando séculos, deverá ser finalmente votada nesta cuarta-feira. Segundo dados do IBGE, mais de 90% da população (e isso inclui parcela significativa de usuários da norma CUlta) coloca acento no cu; um número bem menor (40%) gosta de acentuar o nu. Entretanto, os que assim procedem incorrem em crime de lesa-ortografia, punível com multa e pena de 1 a 2 anos de leitura forçada.
(Agência Estado)
sábado, 4 de maio de 2013
Um rato de sebo em êxtase
Uma litografia de Daumier intitulada Un bouquiniste dans l'ivresse ("Um rato de sebo em êxtase"), de 1844, ilustra perfeitamente a fascinação bibliofílica pela raridade. Ela representa um homem folheando um pequeno volume e dizendo, com ar exaltado, a outro aficionado: "Nada se compara à minha alegria... acabo de encontrar, por cinquenta escudos, um Horácio impresso em Amsterdã em 1780... essa edição é excessivamente preciosa: cada página é repleta de erros!".
(BONNET, Jacques. Fantasmas na biblioteca: a arte de viver entre livros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 31)
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Pelo direito à ternura textual
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| Capa do livro O direito à ternura |
“A ciência, que é também uma modalidade da linguagem, costuma cifrar seus informes em certo modelo frio e burocrático, sem que isso queira dizer que a verdade não pode assumir a forma sugestiva de uma expressão calorosa e acariciadora. A frialdade do discurso científico não é outra coisa senão uma expressão das lógicas de guerra que se inseriram na geração do conhecimento, sem que possamos converter essa deformação histórica num único parâmetro de vitalidade.
Como quiseram uma vez os retóricos e os sofistas, o discurso deve vir carregado de emoção e astúcia persuasiva, pois ali também se decide a veracidade ou falácia dos enunciados. Independentemente da forma que assumam – quer seja a breve e telegráfica dos informes que se publicam nas revistas especializadas, a monótona das teses de graduação ou a amena dos livros de divulgação – os discursos científicos mostram sua fertilidade cognitiva quando conseguem explicitar os pressupostos sobre os quais se assentam, sem assumir a forma de uma enunciação dogmática.
É, pois, a capacidade de gerar crítica e reflexão e não o empobrecimento discursivo e literário a característica que permite distinguir o pensamento científico da repetição dogmática e da charlatania. [...] não podemos deixar de afirmar que, para nós, o discurso é também um agora que pode encher-se de ternura, sendo possível acariciar com a palavra sem que a solidez argumental sofra detrimento por fazer-se acompanhar de vitalidade emotiva.”
(RESTREPO, Luís Carlos. O direito à ternura. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998, p. 17)
quinta-feira, 28 de março de 2013
Se Cazuza fosse revisor
http://www.youtube.com/watch?v=cBAZDJmbUb0
A norma culta fede
A norma culta quer ditar língua
Enquanto houver norma culta
Não vai haver poesia
Pobre de mim que vivo da norma culta
Sou revisor mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal
A norma culta não dá valor à fala
Da vendedora de chicletes
A norma culta só olha pra si
A norma culta só olha pra si
A norma culta é a direita, é o purismo
Vamos pra rua!
Vamos pra rua!
Vamos acabar com a norma culta
Vamos dinamitar a norma culta
Vamos pôr os gramáticos na cadeia
Num gueto de variantes estigmatizadas
Eu sou revisor, mas não sou purista
Estou do lado do povo, do povo!
A norma culta fede
A norma culta quer ditar língua
Enquanto houver norma culta
Não vai haver poesia
Pobre de mim que vivo da norma culta
Sou revisor mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal
A norma culta não dá valor à fala
Da vendedora de chicletes
A norma culta só olha pra si
A norma culta só olha pra si
A norma culta é a direita, é o purismo
Vamos pra rua!
Vamos pra rua!
Vamos acabar com a norma culta
Vamos dinamitar a norma culta
Vamos pôr os gramáticos na cadeia
Num gueto de variantes estigmatizadas
Eu sou revisor, mas não sou purista
Estou do lado do povo, do povo!
sexta-feira, 22 de março de 2013
Olavo de Carvalho errando o alvo
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| Nota do autor Olavo de Carvalho em seu livro “A Filosofia e seu Inverso” (2012). |
A leitura da nota acima mostra que o autor — por
desinformação ou tendenciosidade? — comete o mesmíssimo erro de várias
pessoas que associam a instituição do Novo Acordo Ortográfico ao governo do Lula/PT como se
isso fosse uma iniciativa da tal esquerda que se encontrava então no poder.
O novo Acordo
Ortográfico foi um tratado elaborado e discutido entre 1986 e 1990 pelo
dicionarista Antônio Houaiss (por parte do Brasil) e representantes de outros
países de língua portuguesa. Isso nem mesmo era algo original ou inovador porque copiava, em larga medida, o acordo ortográfico de 1945 (firmado
entre Brasil e Portugal, mas seguido apenas pelos lusos porque os brasileiros se sentiram prejudicados e voltaram a usar o acordo anterior), no qual já eram propostas a abolição do acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e a extinção do trema, mudanças que
já estavam em prática em Portugal desde a década de 1940. Como se vê,
trata-se duma demanda histórica internacional, que atravessou gerações e que
não foi, de modo algum, iniciativa mirabolante dum governo esquerdista em pleno
século XXI.
É ÓBVIO que os interesses e as motivações por trás do novo Acordo podem e devem, sim, ser
questionados. Direito de contestar e criticar isso é algo que o Olavo de Carvalho tem — e
aliás com muita razão —, porque foi um tratado porcamente aprovado pelos
especialistas e que não passou por nenhuma revisão por aqueles que se
encontravam à frente do negócio (a ABL de Evanildo Bechara). Nem os dicionaristas,
gramáticos, linguistas e professores de português concordam com o modo como os
articuladores atuais entregaram o texto do Acordo, que precisava duma série de
correções, atualizações e adaptações. Entretanto, seu conteúdo não é obra de
políticos e dirigentes (nem foi por eles discutido!), mas de academicistas; o
decreto deu força de lei ao Acordo, mas NÃO o planejou e nem o elaborou. Era algo que já se encontrava redigido há 20 anos, na época em que Lula disputava uma eleição
presidencial pela primeira vez.
Querer jogar a
responsabilidade disso no governo em 2009, que só endossou e aprovou por meio
de decreto o que qualquer outro governo teria feito naquele momento, é pura
forçação de barra, para não dizer estupidez. O que faz Olavo de Carvalho acreditar que, estando Serra, Alckmin ou qualquer outro líder com formação escolar superior no lugar de Lula, o decreto não teria sido assinado do
mesmíssimo jeito? Que justificativa, opinião ou embasamento técnico um outro presidente, no lugar do Lula, encontraria para barrar, em 2009, este acordo
internacional e não assinar o decreto? Se os próprios acadêmicos que propuseram a decretação do acordo não
apresentaram restrições e impedimentos, o que faz Olavo raciocinar que qualquer outro
político que não fosse o Lula, de qualquer partido ou orientação, apresentaria?
Olavo de
Carvalho está atirando no alvo errado. Se existe alguém a
quem deve ser imputada a responsabilidade por um acordo ter sido instituído da forma como está,
este alguém é a Academia Brasileira de Letras, representada pelo gramático
Evanildo Bechara, que assumiu a "cria nça" deixada por Houaiss.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
"Robô": rebeldia desde a origem do conceito
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| Cena da peça "R.U.R.", de Karel Čapek (1921) |
“[...] ‘Robô’ é um dos poucos casos
em que os Aurélios são capazes de registrar o dia e hora certa do nascimento de
uma palavra que depois se tornaria corrente em todas as línguas. Ela foi dita
pela primeira vez no dia 26 de janeiro de 1921, quando a peça 'R.U.R', do checo
Karel Čapek, estreou no Teatro Nacional de Praga. No começo, ninguém sabia o
que era um robô. Mas bastou olhar para os atores no palco e para o espectador
na poltrona ao lado para que todo mundo descobrisse o que a palavra
significava. ‘R.U.R.’ queria dizer ‘Robôs Universais de Rossum’ e contava a
história de uma civilização tão avançada que prescindia completamente do
esforço humano, físico ou mental. [...]. O trabalho sujo era feito por um
exército de autômatos — enfim, uma espécie de proletariado mecânico. A
diferença é que, na peça, os robôs se revoltavam e, para impedir futuros
equívocos, exterminavam a raça humana. A hipótese parecia ligeiramente
provável, mas naquele tempo ninguém tomava a ficção ao pé da letra.”
[“As obras-primas que poucos leram”, Heloísa Seixas, p. 173]
domingo, 27 de janeiro de 2013
Egbert
—
O que é que o senhor estava esculpindo quando nós chegamos? — perguntou
Dulcie. O velho tirou do bolso o seu toquinho entalhado.
— Não sei — disse o velhinho. — O que é ao certo, não sei; mas acho que deve ser um flatipus.
— E o que é um flatipus? — perguntou George.
— Não sei, mas espero que se pareça com alguma coisa assim.
— Mas então por que o chama de flatipus, se não sabe com que um flatipus se parece?
— Bem — respondeu o velhinho —, está mais parecido com um flatipus do que com qualquer outra coisa que eu já vi.
("A árvore dos desejos", de William Faulkner)
— Bem — respondeu o velhinho —, está mais parecido com um flatipus do que com qualquer outra coisa que eu já vi.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Das opções seculares
Século XVIII: fé ou razão?
Século XIX: criação ou evolução?
Século XX: capitalismo ou socialismo?
Século XXI: débito ou crédito?
Século XIX: criação ou evolução?
Século XX: capitalismo ou socialismo?
Século XXI: débito ou crédito?
domingo, 20 de janeiro de 2013
Flagrante de irmandade
Hoje, no Big Box, me esbarrei com dois irmãozinhos – ela, duns 7 anos, dentro do carrinho; ele, duns 11, carregando-a. Ele:
— Que foi que meu pai pediu pra gente pegar mesmo?
Ela:
— Ah, pediu um monte de coisa, mas A GENTE NÃO VAI FAZER ISSO AGORA porque vamos correr com esse carrinho pelo mercado!
E partiram em disparada, derrubando e trocando coisas de lugar, naquela cumplicidade consentida e sem medo de ser feliz.
— Que foi que meu pai pediu pra gente pegar mesmo?
Ela:
— Ah, pediu um monte de coisa, mas A GENTE NÃO VAI FAZER ISSO AGORA porque vamos correr com esse carrinho pelo mercado!
E partiram em disparada, derrubando e trocando coisas de lugar, naquela cumplicidade consentida e sem medo de ser feliz.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Senador propõe adiar vigência do Novo Acordo Ortográfico para depois do Fim do Mundo
(Agência Estado) Tudo indica que o Novo Acordo Ortográfico não entrará em vigor tão cedo. "Deixemos isso para depois de 21/12. Já pensou se formos discutir se a grafia ideal é 'fim do mundo' ou 'fim-do-mundo', sem hífen ou com hífen? O mundo não vai acabar nunca!" declarou o senador Cyro Miranda (PSDB-GO). "Esse adiamento também é importante para discutirmos outras questões ortográficas ainda não contempladas pelo Novo Acordo em vigor, como a inserção dum acento agudo no cu. Sempre quis colocar um acento no cu. 'Cu' sem acento fica parecendo símbolo químico da Tabela Periódica!".
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