sexta-feira, 1 de julho de 2011

A vila revisitada

 
Para os que visitam o tantas vezes recitado Goiás Velho, a Vila Boa de Goiás, é dada a chance de descobrir, por meio de simpático busto debruçado à janela, o lar de sua mais famosa doceira. A vontade imediata é poder logo adentrar, folhear a intimidade do livro da vida daquela senhora – preservado em forma de museu – e ouvir a guia contar as estórias de Cora entrelaçadas à história da Vila.

Mas repentina insatisfação surpreende o viajante sedento de registros: o interior da casa é proibido retratar... Resta-lhe então buscar – tal qual fez a poeta – os temas que a inspiraram nos arredores da residência e da cidade. E é sem esforço que nos deparamos com estórias sendo contadas bem ali, na ponta de nossos pés, a partir das ruas de pedra; mais adiante, na beleza remota das igrejas coloniais; e se ousarmos bater às portas, continuamos a saber mais pelos contos das vizinhas doceiras, enquanto preparam guloseimas.

E assim se experimentam as sinestesias que inspiravam poemas e contos: saboreando, no rio que margeia a casa, a deliciosa sonoridade; ouvindo, no verde do quintal, a silenciosa serenidade; visualizando, nas iguarias das vizinhas, a imortal doçura.




Quem lê Cora também vê a Vila. E estar na Vila é ler Cora. Para o viajante, passeio se torna leitura; e seus passos, versos.

Voltemos a reparar agora o busto senil à janela: seria mesmo preciso? Ora, em vez da mera escultura, por que não deixar que descubram sua essência por meio de todos os doces, verdes e pedras que testemunham a mais cotidiana criação literária daquela vila?

Ao sair da casa, vemos que ela está do jeito que Cora deixou. Assim como, ao partir da cidade, vemos que Goiás Velho permanece como a poeta deixou, retratado em seus versos.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Verbete do Dicionário Candango


Chover - verbo pessoal e conjugável em qualquer tempo ou modo para quem vive em Brasília: eu chovo, tu choves, ele chove...

domingo, 6 de março de 2011

Poeminha do Ricardão

Esquece filho, esquece marido;
Vem viver uma aventura comigo!
Aturar família é sempre dose:
Desestresse, relaxe e goze.

domingo, 24 de outubro de 2010

Serenata a uma pretensiosa (1945), Joaquim de Barros



A poesia está inscrita numa fonte em Folgosinho, Serra da Estrela, Portugal.

É uma raridade: além de singulares, esses versos são atribuídos a um poeta português esquecido e perdido no tempo, um certo Joaquim de Barros. É a última estrofe de "Serenata a uma pretensiosa" (1945):

Não procures subir alto
Modera as tuas canseiras
Há muitas vezes, a beleza
Mesmo nas ervas rasteiras.

Nas tuas unhas condiz
Teu modo de ostentação
Por fora sobra verniz
Por dentro falta sabão.

Nem sempre uma linda cara
Traduz encanto no mundo
Há mil fontes de àgua clara
Cheias de lodo no fundo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Enquanto isso, na Rorizlândia...

Balõezinhos by Davi® 
  
Obs.: essa imagem NÃO foi photoshopada. Ela estava realmente usando um chapéu vermelho. Duvida? Vá ao site dela, se tiver disposição para tanto: http://weslian.com.br/

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Prova da existência de Deus



Toda vez que desejo calar a boca dos meus amigos ateus, basta que eu mostre a eles uma fotografia de Jennifer Connelly.

Ela é a mais absoluta prova da existência de Deus.

Olhe bem pra ela e me diga: como o CAOS, como o ACASO poderia conceber a beleza dessa mulher?

domingo, 6 de junho de 2010

A vingança do comunista na latinha de Coca-Cola


Certa vez, Roberto Campos (vulgo Bob Fields) disse o seguinte, a respeito da cidade de Brasília:

“Foi a vingança de um arquiteto comunista contra a sociedade burguesa”.

Recentemente, por ocasião dos 50 anos de Brasília, a Coca-Cola lançou uma versão de suas latinhas em volume de 270 ml com todas as obras de Oscar Niemeyer existentes na cidade estampadas em sua superfície (incluindo a escultura Os Candangos, que é obra de Bruno Giorgi).

O que terá dito Oscar Niemeyer quando viu isso?

Ou melhor: o que diria o falecido Roberto Campos se visse isso?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Flores do Mal

Se eu disser que há uma canção do rock brazuca chamada "Flores do Mal", aposto como 90% das pessoas dirão "ah, é aquela música da Legião Urbana, né?" ("Mentir é facil demais...") . Lamentavelmente, pouca gente conhece uma música de mesmo nome, de 1992, que é uma canção underrated do Barão Vermelho, beeeem mais bela que a da Legião:





Não me retalhe em escândalos
(...)
Não me esqueça por tão pouco
Nem diga adeus por engano
Mas é sempre assim
A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal


É incrível como me sinto, hoje, devidamente contemplado pelos versos desta música. E ao mesmo tempo que é doloroso pensar naquilo que ela me faz lembrar, é reconfortante ouvi-la - como se o meu próprio desabafo estivesse sendo ali cantado, como único consolo restante. Masoquista, eu? Não... humano, demasiadamente humano.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

nıɐɔ ǝlǝ ǝnb oʇuɐʇ ıoɟ oıɹqílınbǝsǝp o

A declaração do promotor de Justiça Militar do MPDFT, Mauro Faria, feita esta semana no telejornal DF Record, foi de uma sagacidade fenomenal.

A respeito desta badalada cena, onde o comandante da PM parte pra cima do manifestante e cai, a partir dos 0:45,



O promotor militar declarou o seguinte (desse jeito, literalmente) aos repórteres:


As filmagens mostram um desequilíbrio do Comandante, tanto que ele caiu.


Sei que é falar do óbvio, mas não resisto em comentar: por um lado, a declaração pode ser simples e ingenuamente lida/ouvida entendendo-se o termo desequilíbrio apenas em seu sentido físico, o que torna a oração subordinada "tanto que ele caiu" - e todo o resto da declaração - uma constatação mais do que óbvia, inútil e desnecessária pra quem confere o vídeo; por outro, identifica-se aqui um sarcasmo dificilmente demonstrado em público por parte desses promotores: tachou o comandante da PM de desequilibrado físico E psicológico, simultaneamente.

Eu imaginava que esses promotores fossem sóbrios e sérios até a alma, mas a oportunidade encontrada para proporcionar um duplo sentido para a palavra em questão - e fazer graça - foi muito bem aproveitada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Bom gosto musical é afrodisíaco

Confira apenas os 30 segundos iniciais desse trailer e comprove: o sonho de todo homem com um gosto musical decente é poder encontrar uma mulher que tenha esse mesmo bom gosto.





A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Deu no jornal

Manchete de ontem:


"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."


A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Teoria da grama do vizinho

[certa tarde, em meio a uma conversa durante uma volta pela cidade com Rose]

Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.

Rose - Não é não, nego... só é diferente.

domingo, 7 de junho de 2009

Entre autores e atores, a voz do verso

No site do Portal Nação Cultural Pernambuco, há um link para ouvir versos de Bandeira e Drummond lidos pelos próprios autores:

http://www.nacaocultural.pe.gov.br/bandeira-e-drummond

Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.

domingo, 19 de abril de 2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Versos perdidos em Guaratinguetá

Leva-me pela mão, querida
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.

Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.

Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.