quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Enquanto isso, na Rorizlândia...
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Prova da existência de Deus
Toda vez que desejo calar a boca dos meus amigos ateus, basta que eu mostre a eles uma fotografia de Jennifer Connelly.
Ela é a mais absoluta prova da existência de Deus.
Olhe bem pra ela e me diga: como o CAOS, como o ACASO poderia conceber a beleza dessa mulher?
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
A vingança do comunista na latinha de Coca-Cola

Certa vez, Roberto Campos (vulgo Bob Fields) disse o seguinte, a respeito da cidade de Brasília:
“Foi a vingança de um arquiteto comunista contra a sociedade burguesa”.
Recentemente, por ocasião dos 50 anos de Brasília, a Coca-Cola lançou uma versão de suas latinhas em volume de 270 ml com todas as obras de Oscar Niemeyer existentes na cidade estampadas em sua superfície (incluindo a escultura Os Candangos, que é obra de Bruno Giorgi).
O que terá dito Oscar Niemeyer quando viu isso?
Ou melhor: o que diria o falecido Roberto Campos se visse isso?
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Flores do Mal
Se eu disser que há uma canção do rock brazuca chamada "Flores do Mal", aposto como 90% das pessoas dirão "ah, é aquela música da Legião Urbana, né?" ("Mentir é facil demais...") . Lamentavelmente, pouca gente conhece uma música de mesmo nome, de 1992, que é uma canção underrated do Barão Vermelho, beeeem mais bela que a da Legião:
Não me retalhe em escândalos
(...)
Não me esqueça por tão pouco
Nem diga adeus por engano
Mas é sempre assim
A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal
É incrível como me sinto, hoje, devidamente contemplado pelos versos desta música. E ao mesmo tempo que é doloroso pensar naquilo que ela me faz lembrar, é reconfortante ouvi-la - como se o meu próprio desabafo estivesse sendo ali cantado, como único consolo restante. Masoquista, eu? Não... humano, demasiadamente humano.
Não me retalhe em escândalos
(...)
Não me esqueça por tão pouco
Nem diga adeus por engano
Mas é sempre assim
A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal
É incrível como me sinto, hoje, devidamente contemplado pelos versos desta música. E ao mesmo tempo que é doloroso pensar naquilo que ela me faz lembrar, é reconfortante ouvi-la - como se o meu próprio desabafo estivesse sendo ali cantado, como único consolo restante. Masoquista, eu? Não... humano, demasiadamente humano.
sábado, 9 de janeiro de 2010
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
nıɐɔ ǝlǝ ǝnb oʇuɐʇ ıoɟ oıɹqílınbǝsǝp o
A declaração do promotor de Justiça Militar do MPDFT, Mauro Faria, feita esta semana no telejornal DF Record, foi de uma sagacidade fenomenal.
A respeito desta badalada cena, onde o comandante da PM parte pra cima do manifestante e cai, a partir dos 0:45,
O promotor militar declarou o seguinte (desse jeito, literalmente) aos repórteres:
As filmagens mostram um desequilíbrio do Comandante, tanto que ele caiu.
Sei que é falar do óbvio, mas não resisto em comentar: por um lado, a declaração pode ser simples e ingenuamente lida/ouvida entendendo-se o termo desequilíbrio apenas em seu sentido físico, o que torna a oração subordinada "tanto que ele caiu" - e todo o resto da declaração - uma constatação mais do que óbvia, inútil e desnecessária pra quem confere o vídeo; por outro, identifica-se aqui um sarcasmo dificilmente demonstrado em público por parte desses promotores: tachou o comandante da PM de desequilibrado físico E psicológico, simultaneamente.
Eu imaginava que esses promotores fossem sóbrios e sérios até a alma, mas a oportunidade encontrada para proporcionar um duplo sentido para a palavra em questão - e fazer graça - foi muito bem aproveitada.
A respeito desta badalada cena, onde o comandante da PM parte pra cima do manifestante e cai, a partir dos 0:45,
O promotor militar declarou o seguinte (desse jeito, literalmente) aos repórteres:
As filmagens mostram um desequilíbrio do Comandante, tanto que ele caiu.
Sei que é falar do óbvio, mas não resisto em comentar: por um lado, a declaração pode ser simples e ingenuamente lida/ouvida entendendo-se o termo desequilíbrio apenas em seu sentido físico, o que torna a oração subordinada "tanto que ele caiu" - e todo o resto da declaração - uma constatação mais do que óbvia, inútil e desnecessária pra quem confere o vídeo; por outro, identifica-se aqui um sarcasmo dificilmente demonstrado em público por parte desses promotores: tachou o comandante da PM de desequilibrado físico E psicológico, simultaneamente.
Eu imaginava que esses promotores fossem sóbrios e sérios até a alma, mas a oportunidade encontrada para proporcionar um duplo sentido para a palavra em questão - e fazer graça - foi muito bem aproveitada.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Triste Futuro do Pretérito
O maior desgosto da vida pode ser resumido nesta frase:
"Poderia ter sido... Mas não foi."
domingo, 2 de agosto de 2009
Bom gosto musical é afrodisíaco
Confira apenas os 30 segundos iniciais desse trailer e comprove: o sonho de todo homem com um gosto musical decente é poder encontrar uma mulher que tenha esse mesmo bom gosto.
A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.
A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Deu no jornal
Manchete de ontem:
"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."
A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.
"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."
A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Teoria da grama do vizinho
[certa tarde, em meio a uma conversa durante uma volta pela cidade com Rose]
Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.
Rose - Não é não, nego... só é diferente.
Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.
Rose - Não é não, nego... só é diferente.
domingo, 21 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
Entre autores e atores, a voz do verso
No site do Portal Nação Cultural Pernambuco, há um link para ouvir versos de Bandeira e Drummond lidos pelos próprios autores:
http://www.nacaocultural.pe.gov.br/bandeira-e-drummond
Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.
http://www.nacaocultural.pe.
Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.
domingo, 19 de abril de 2009
Triste constatação
A sensibilidade é tão ridicularizada
que às vezes me envergonho
de ser tão sensível
que às vezes me envergonho
de ser tão sensível
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Versos perdidos em Guaratinguetá
Leva-me pela mão, querida
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.
Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.
Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.
Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.
Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Chomsky, Skinner e Vygotsky sentados à mesa dum bar
![]() |
| "The Intellectuals at la Rotonde", Tullio Garbari (1916) |
(...)
Chomsky:
— Vem cá, Skinner, por que uma criança, mesmo ouvindo os adultos dizerem "fiz" e "sei", ainda assim diz "fazi" e "sabo", seguindo naturalmente os paradigmas regulares dos verbos da 2ª conjugação, terminados em -er, quando todos os reforços seriam, nesse caso, favoráveis à primeira forma, irregular ?...
Skinner:
— Isso não contradiz o que eu penso. A princípio, ela pode até dizer "fazi" e "sabo", mas tal condição não se perdura por muito tempo, até porque, justamente graças aos reforços, essa mesma criança deixa de falar "fazi" e "sabo" e passa a falar "fiz" e "sei"... por que será, hein Noam?
Vygotsky:
— Chomsky, não acredito que isso aconteça tão "naturalmente" assim. O que ocorre é que, após essa criança se apropriar da forma cultural dos adultos de usar paradigmas de verbos regulares (bato, bati; vendo, vendi), assim que precisar usar os irregulares saber e fazer, ela os conjugará "sabo" e "fazi", como resultado da generalização dos paradigmas que ela assimilou culturalmente... Isso também serve pra você, Skinner: a criança deixa de falar "sabo" e "fazi" e passa a conjugar por meio do paradigma irregular devido ao mesmo motivo, já que, aos poucos, vai se apropriando da forma cultural devidamente consolidada entre os adultos.
(...)
Assinale abaixo quem será o vencedor do debate e, como tal, irá embora sem precisar pagar a conta:
a) Diretor Skinner, que convencerá todos na base dos reforços;
b) Mister Chomsky, que conseguirá fazer todos dialogarem numa mesma língua ideal e de acordo com uma gramática universal;
c) Kamarada Vygotsky, que mesmo com um princípio de tuberculose não abriu mão de tomar uma boa vodka russa com os demais kamaradas no bar;
d) Monsieur Piaget, que também tá bem ali no canto da mesa fumando um cachimbo só esperando sua vez de falar;
e) Outro teórico que faltou ser convidado mas que fará das idéias anteriores meros itens dicionarizados.
domingo, 30 de novembro de 2008
Longe da tela, perto de mim

Lá estava eu no meio daquele saguão do Cine Brasília, concentrado e aguardando alguém do outro lado da linha me atender no celular, quando vejo uma menina branquiiiinha, de olhar distante, que logo de cara me pareceu familiar: tinha acabado de assistir "Proibido Proibir" no DVD lá em casa naquela tarde, e agora aquela personagem do filme estava bem ali, com aquele mesmo jeitinho de se vestir, na minha frente, na companhia de um desconhecido. Tão simples, despojada e discreta que nem parecia atrair a atenção de cinéfilos e admiradores. A minha atraiu...
Fitei-a - devidamente paralisado - por vários segundos; após um certo intervalo, tornava a fitá-la. Posso jurar que em um momento ela chegou a perceber meu contido assédio visual, mas em sua natural discrição aceitou a reverência silenciosa que eu fazia. Até porque não a devorava com os olhos, só estava ali a apreciar a beleza que, em meu imaginário, se transfigurava alternadamente, ora em atriz, ora em personagem.
Eis que nova sessão se aproximava e outros jurados do Festival vieram chamá-la para junto deles. Com o corpo paralisado, só meus olhos a seguiram, rumando ao interior da sala de projeção.
Por alguns minutos, tive a menina Flor diante dos meus olhos. Como jamais terei por horas diante de uma tela.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O negado sabor da infância
Encontrei Rose sem querer no Conjunto Nacional nesse último feriadão. Como sempre temos troceeentos assuntos para atualizar, foi preciso uma parada obrigatória na praça de alimentação do shopping. 'Bora comer no Bob's? 'bora...
Enquanto estávamos na fila fuçando o cardápio, não pude deixar de notar uma menina que aparentava ter uns oito, nove anos. Acompanhada de seu pai, que portava trajes um pouco surrados, vestia uma roupinha igualmente surrada, e também um pouco suja. Mesmo assim, com o mínimo de dignidade que aquelas roupas podiam lhes proporcionar, percebia-se que haviam se arrumado sim para sair e passear naquele fim de semana prolongado. Ela parou bem à nossa frente, e ficou olhando pro alto da lanchonete, boquiaberta, com os olhinhos fixos para o painel repleto de fotografias de sanduíches.
Há muito tempo eu não via tanto fascínio no rosto de uma criança.
E não se tratava do encanto de uma menina já acostumada a comer de vez em sempre naquelas lanchonetes, mas de uma que nunca tinha visto algo parecido antes, em toda sua vida. Imagine só o quanto toda aquela novidade colorida atiçava sua visão e provocava seu paladar. Dava pra ter certeza disso, só de ficar ali reparando nos seus olhinhos brilhantes, semi-lacrimejantes. Dava gosto de ver naquele rosto a alegria que precedia o prazer prestes a experimentar.
Após examinar atentamente cada imagem de sanduíche - e ainda boquiaberta - ela se virou e passou a fitar seu pai, um senhor de quarenta e tantos anos, de rosto castigado por tanto trabalho suado, mas que mal dava pra pagar um daqueles caros sanduíches. De boca aberta, mas sem articular uma só palavra, ela perguntou para o pai, com o olhar, se podia escolher um daqueles sedutores bigbob's. E o pobre-pai-pobre, com uma expressão de impotência, constrangimento e lamentação, balançou a cabeça para os lados balbuciando-lhe algumas palavras que eu entendi como "esses aí não dá não, é muito caro... 'bora ver outro lugar."
Ao se afastar da lanchonete, conduzida pelo pai, só tirou os olhos do painel do Bob's pra encarar os demais painéis, do Giraffa's ao Burger King, passando pelo McDonalds. Em vão, porque após uma volta dada por toda a praça de alimentação, o pai deve ter constatado que não tinha condições de realizar o desejo da filha.
E assim desceram pela escada rolante, em direção à saída.
Precisava pensar rápido: o que eu poderia fazer? Juro que queria fazer algo por ela; mas como ir até lá dizer ao pai que eu podia pagar o lanche cobiçado pela filha, sem constrangê-lo, envergonhá-lo ou no mínimo deixá-lo incomodado ou estranhado com a minha intromissão? Tarde demais. Senti-me impotente mas me dei por satisfeito em desabafar tudo isso com Rose, enquanto nos deliciávamos com nossos sanduichões.
Pensei comigo: deve tê-la levado pra lanchar na Rodô, afinal de contas um trio viçosa sai por uns R$ 2,00 e uns quebradinhos; nada que tenha tanto encanto e sabor - pelo menos o sabor que ela queria tanto ter provado.
Momentos após sair do shopping e me despedir da Rose, vejo três crianças, todas por volta dos seis anos, crias de uma família de indigentes, correndo penduradas num carrinho de supermercado, por entre as privilegiadas superquadras da Asa Norte. A alegria e o prazer com que se divertem junto ao brinquedo improvisado devem fazê-las desconhecer todo aquele tanto de mundo ao redor que lhes é negado. Mas o que será delas quando não for mais possível ignorar todo o sabor atraente desse mundo? O que vai acontecer quando elas amargarem a mesma sensação de negação e privação vivida pela menina boquiaberta e fascinada - e logo em seguida, frustrada - com o colorido da praça de alimentação?
Não, eu ainda não esqueci daquela carinha deslumbrada com o novo mundo recém-descoberto, e ao mesmo tempo negado. Me comovo toda vez que me lembro, e me comove ainda mais não saber que fim teve aquele olhar de encanto ao descer a escada rolante.
Meu Deus, eu nunca vou saber.
Enquanto estávamos na fila fuçando o cardápio, não pude deixar de notar uma menina que aparentava ter uns oito, nove anos. Acompanhada de seu pai, que portava trajes um pouco surrados, vestia uma roupinha igualmente surrada, e também um pouco suja. Mesmo assim, com o mínimo de dignidade que aquelas roupas podiam lhes proporcionar, percebia-se que haviam se arrumado sim para sair e passear naquele fim de semana prolongado. Ela parou bem à nossa frente, e ficou olhando pro alto da lanchonete, boquiaberta, com os olhinhos fixos para o painel repleto de fotografias de sanduíches.
Há muito tempo eu não via tanto fascínio no rosto de uma criança.
E não se tratava do encanto de uma menina já acostumada a comer de vez em sempre naquelas lanchonetes, mas de uma que nunca tinha visto algo parecido antes, em toda sua vida. Imagine só o quanto toda aquela novidade colorida atiçava sua visão e provocava seu paladar. Dava pra ter certeza disso, só de ficar ali reparando nos seus olhinhos brilhantes, semi-lacrimejantes. Dava gosto de ver naquele rosto a alegria que precedia o prazer prestes a experimentar.
Após examinar atentamente cada imagem de sanduíche - e ainda boquiaberta - ela se virou e passou a fitar seu pai, um senhor de quarenta e tantos anos, de rosto castigado por tanto trabalho suado, mas que mal dava pra pagar um daqueles caros sanduíches. De boca aberta, mas sem articular uma só palavra, ela perguntou para o pai, com o olhar, se podia escolher um daqueles sedutores bigbob's. E o pobre-pai-pobre, com uma expressão de impotência, constrangimento e lamentação, balançou a cabeça para os lados balbuciando-lhe algumas palavras que eu entendi como "esses aí não dá não, é muito caro... 'bora ver outro lugar."
Ao se afastar da lanchonete, conduzida pelo pai, só tirou os olhos do painel do Bob's pra encarar os demais painéis, do Giraffa's ao Burger King, passando pelo McDonalds. Em vão, porque após uma volta dada por toda a praça de alimentação, o pai deve ter constatado que não tinha condições de realizar o desejo da filha.
E assim desceram pela escada rolante, em direção à saída.
Precisava pensar rápido: o que eu poderia fazer? Juro que queria fazer algo por ela; mas como ir até lá dizer ao pai que eu podia pagar o lanche cobiçado pela filha, sem constrangê-lo, envergonhá-lo ou no mínimo deixá-lo incomodado ou estranhado com a minha intromissão? Tarde demais. Senti-me impotente mas me dei por satisfeito em desabafar tudo isso com Rose, enquanto nos deliciávamos com nossos sanduichões.
Pensei comigo: deve tê-la levado pra lanchar na Rodô, afinal de contas um trio viçosa sai por uns R$ 2,00 e uns quebradinhos; nada que tenha tanto encanto e sabor - pelo menos o sabor que ela queria tanto ter provado.
Momentos após sair do shopping e me despedir da Rose, vejo três crianças, todas por volta dos seis anos, crias de uma família de indigentes, correndo penduradas num carrinho de supermercado, por entre as privilegiadas superquadras da Asa Norte. A alegria e o prazer com que se divertem junto ao brinquedo improvisado devem fazê-las desconhecer todo aquele tanto de mundo ao redor que lhes é negado. Mas o que será delas quando não for mais possível ignorar todo o sabor atraente desse mundo? O que vai acontecer quando elas amargarem a mesma sensação de negação e privação vivida pela menina boquiaberta e fascinada - e logo em seguida, frustrada - com o colorido da praça de alimentação?
Não, eu ainda não esqueci daquela carinha deslumbrada com o novo mundo recém-descoberto, e ao mesmo tempo negado. Me comovo toda vez que me lembro, e me comove ainda mais não saber que fim teve aquele olhar de encanto ao descer a escada rolante.
Meu Deus, eu nunca vou saber.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Reitoria

paródia do poema "Pescaria" de Cecília Meireles*
Gritos de protesto e de ação.
Cheio de cartazes, em cada andar.
Cheiro de tinta pelo ar.
E stencils pelo chão.
Chora o reitor de amargura,
fora de sua cobertura.
Estudantes vêm e vão,
De mãos unidas pela reitoria
onde os ocupantes estão.
Seguranças e "polícias" vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
ao andar da Ocupação.
Por isso chia, de teimosia,
o pobre reitor sem reitoria.
* poema original: http://zezepina.utopia.com.br
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