Se eu disser que há uma canção do rock brazuca chamada "Flores do Mal", aposto como 90% das pessoas dirão "ah, é aquela música da Legião Urbana, né?" ("Mentir é facil demais...") . Lamentavelmente, pouca gente conhece uma música de mesmo nome, de 1992, que é uma canção underrated do Barão Vermelho, beeeem mais bela que a da Legião:
Não me retalhe em escândalos
(...)
Não me esqueça por tão pouco
Nem diga adeus por engano
Mas é sempre assim
A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal
É incrível como me sinto, hoje, devidamente contemplado pelos versos desta música. E ao mesmo tempo que é doloroso pensar naquilo que ela me faz lembrar, é reconfortante ouvi-la - como se o meu próprio desabafo estivesse sendo ali cantado, como único consolo restante. Masoquista, eu? Não... humano, demasiadamente humano.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
sábado, 9 de janeiro de 2010
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
nıɐɔ ǝlǝ ǝnb oʇuɐʇ ıoɟ oıɹqílınbǝsǝp o
A declaração do promotor de Justiça Militar do MPDFT, Mauro Faria, feita esta semana no telejornal DF Record, foi de uma sagacidade fenomenal.
A respeito desta badalada cena, onde o comandante da PM parte pra cima do manifestante e cai, a partir dos 0:45,
O promotor militar declarou o seguinte (desse jeito, literalmente) aos repórteres:
As filmagens mostram um desequilíbrio do Comandante, tanto que ele caiu.
Sei que é falar do óbvio, mas não resisto em comentar: por um lado, a declaração pode ser simples e ingenuamente lida/ouvida entendendo-se o termo desequilíbrio apenas em seu sentido físico, o que torna a oração subordinada "tanto que ele caiu" - e todo o resto da declaração - uma constatação mais do que óbvia, inútil e desnecessária pra quem confere o vídeo; por outro, identifica-se aqui um sarcasmo dificilmente demonstrado em público por parte desses promotores: tachou o comandante da PM de desequilibrado físico E psicológico, simultaneamente.
Eu imaginava que esses promotores fossem sóbrios e sérios até a alma, mas a oportunidade encontrada para proporcionar um duplo sentido para a palavra em questão - e fazer graça - foi muito bem aproveitada.
A respeito desta badalada cena, onde o comandante da PM parte pra cima do manifestante e cai, a partir dos 0:45,
O promotor militar declarou o seguinte (desse jeito, literalmente) aos repórteres:
As filmagens mostram um desequilíbrio do Comandante, tanto que ele caiu.
Sei que é falar do óbvio, mas não resisto em comentar: por um lado, a declaração pode ser simples e ingenuamente lida/ouvida entendendo-se o termo desequilíbrio apenas em seu sentido físico, o que torna a oração subordinada "tanto que ele caiu" - e todo o resto da declaração - uma constatação mais do que óbvia, inútil e desnecessária pra quem confere o vídeo; por outro, identifica-se aqui um sarcasmo dificilmente demonstrado em público por parte desses promotores: tachou o comandante da PM de desequilibrado físico E psicológico, simultaneamente.
Eu imaginava que esses promotores fossem sóbrios e sérios até a alma, mas a oportunidade encontrada para proporcionar um duplo sentido para a palavra em questão - e fazer graça - foi muito bem aproveitada.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Triste Futuro do Pretérito
O maior desgosto da vida pode ser resumido nesta frase:
"Poderia ter sido... Mas não foi."
domingo, 2 de agosto de 2009
Bom gosto musical é afrodisíaco
Confira apenas os 30 segundos iniciais desse trailer e comprove: o sonho de todo homem com um gosto musical decente é poder encontrar uma mulher que tenha esse mesmo bom gosto.
A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.
A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Deu no jornal
Manchete de ontem:
"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."
A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.
"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."
A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Teoria da grama do vizinho
[certa tarde, em meio a uma conversa durante uma volta pela cidade com Rose]
Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.
Rose - Não é não, nego... só é diferente.
Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.
Rose - Não é não, nego... só é diferente.
domingo, 21 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
Entre autores e atores, a voz do verso
No site do Portal Nação Cultural Pernambuco, há um link para ouvir versos de Bandeira e Drummond lidos pelos próprios autores:
http://www.nacaocultural.pe.gov.br/bandeira-e-drummond
Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.
http://www.nacaocultural.pe.
Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.
domingo, 19 de abril de 2009
Triste constatação
A sensibilidade é tão ridicularizada
que às vezes me envergonho
de ser tão sensível
que às vezes me envergonho
de ser tão sensível
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Versos perdidos em Guaratinguetá
Leva-me pela mão, querida
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.
Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.
Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.
Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.
Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Chomsky, Skinner e Vygotsky sentados à mesa dum bar
![]() |
| "The Intellectuals at la Rotonde", Tullio Garbari (1916) |
(...)
Chomsky:
— Vem cá, Skinner, por que uma criança, mesmo ouvindo os adultos dizerem "fiz" e "sei", ainda assim diz "fazi" e "sabo", seguindo naturalmente os paradigmas regulares dos verbos da 2ª conjugação, terminados em -er, quando todos os reforços seriam, nesse caso, favoráveis à primeira forma, irregular ?...
Skinner:
— Isso não contradiz o que eu penso. A princípio, ela pode até dizer "fazi" e "sabo", mas tal condição não se perdura por muito tempo, até porque, justamente graças aos reforços, essa mesma criança deixa de falar "fazi" e "sabo" e passa a falar "fiz" e "sei"... por que será, hein Noam?
Vygotsky:
— Chomsky, não acredito que isso aconteça tão "naturalmente" assim. O que ocorre é que, após essa criança se apropriar da forma cultural dos adultos de usar paradigmas de verbos regulares (bato, bati; vendo, vendi), assim que precisar usar os irregulares saber e fazer, ela os conjugará "sabo" e "fazi", como resultado da generalização dos paradigmas que ela assimilou culturalmente... Isso também serve pra você, Skinner: a criança deixa de falar "sabo" e "fazi" e passa a conjugar por meio do paradigma irregular devido ao mesmo motivo, já que, aos poucos, vai se apropriando da forma cultural devidamente consolidada entre os adultos.
(...)
Assinale abaixo quem será o vencedor do debate e, como tal, irá embora sem precisar pagar a conta:
a) Diretor Skinner, que convencerá todos na base dos reforços;
b) Mister Chomsky, que conseguirá fazer todos dialogarem numa mesma língua ideal e de acordo com uma gramática universal;
c) Kamarada Vygotsky, que mesmo com um princípio de tuberculose não abriu mão de tomar uma boa vodka russa com os demais kamaradas no bar;
d) Monsieur Piaget, que também tá bem ali no canto da mesa fumando um cachimbo só esperando sua vez de falar;
e) Outro teórico que faltou ser convidado mas que fará das idéias anteriores meros itens dicionarizados.
domingo, 30 de novembro de 2008
Longe da tela, perto de mim

Lá estava eu no meio daquele saguão do Cine Brasília, concentrado e aguardando alguém do outro lado da linha me atender no celular, quando vejo uma menina branquiiiinha, de olhar distante, que logo de cara me pareceu familiar: tinha acabado de assistir "Proibido Proibir" no DVD lá em casa naquela tarde, e agora aquela personagem do filme estava bem ali, com aquele mesmo jeitinho de se vestir, na minha frente, na companhia de um desconhecido. Tão simples, despojada e discreta que nem parecia atrair a atenção de cinéfilos e admiradores. A minha atraiu...
Fitei-a - devidamente paralisado - por vários segundos; após um certo intervalo, tornava a fitá-la. Posso jurar que em um momento ela chegou a perceber meu contido assédio visual, mas em sua natural discrição aceitou a reverência silenciosa que eu fazia. Até porque não a devorava com os olhos, só estava ali a apreciar a beleza que, em meu imaginário, se transfigurava alternadamente, ora em atriz, ora em personagem.
Eis que nova sessão se aproximava e outros jurados do Festival vieram chamá-la para junto deles. Com o corpo paralisado, só meus olhos a seguiram, rumando ao interior da sala de projeção.
Por alguns minutos, tive a menina Flor diante dos meus olhos. Como jamais terei por horas diante de uma tela.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O negado sabor da infância
Encontrei Rose sem querer no Conjunto Nacional nesse último feriadão. Como sempre temos troceeentos assuntos para atualizar, foi preciso uma parada obrigatória na praça de alimentação do shopping. 'Bora comer no Bob's? 'bora...
Enquanto estávamos na fila fuçando o cardápio, não pude deixar de notar uma menina que aparentava ter uns oito, nove anos. Acompanhada de seu pai, que portava trajes um pouco surrados, vestia uma roupinha igualmente surrada, e também um pouco suja. Mesmo assim, com o mínimo de dignidade que aquelas roupas podiam lhes proporcionar, percebia-se que haviam se arrumado sim para sair e passear naquele fim de semana prolongado. Ela parou bem à nossa frente, e ficou olhando pro alto da lanchonete, boquiaberta, com os olhinhos fixos para o painel repleto de fotografias de sanduíches.
Há muito tempo eu não via tanto fascínio no rosto de uma criança.
E não se tratava do encanto de uma menina já acostumada a comer de vez em sempre naquelas lanchonetes, mas de uma que nunca tinha visto algo parecido antes, em toda sua vida. Imagine só o quanto toda aquela novidade colorida atiçava sua visão e provocava seu paladar. Dava pra ter certeza disso, só de ficar ali reparando nos seus olhinhos brilhantes, semi-lacrimejantes. Dava gosto de ver naquele rosto a alegria que precedia o prazer prestes a experimentar.
Após examinar atentamente cada imagem de sanduíche - e ainda boquiaberta - ela se virou e passou a fitar seu pai, um senhor de quarenta e tantos anos, de rosto castigado por tanto trabalho suado, mas que mal dava pra pagar um daqueles caros sanduíches. De boca aberta, mas sem articular uma só palavra, ela perguntou para o pai, com o olhar, se podia escolher um daqueles sedutores bigbob's. E o pobre-pai-pobre, com uma expressão de impotência, constrangimento e lamentação, balançou a cabeça para os lados balbuciando-lhe algumas palavras que eu entendi como "esses aí não dá não, é muito caro... 'bora ver outro lugar."
Ao se afastar da lanchonete, conduzida pelo pai, só tirou os olhos do painel do Bob's pra encarar os demais painéis, do Giraffa's ao Burger King, passando pelo McDonalds. Em vão, porque após uma volta dada por toda a praça de alimentação, o pai deve ter constatado que não tinha condições de realizar o desejo da filha.
E assim desceram pela escada rolante, em direção à saída.
Precisava pensar rápido: o que eu poderia fazer? Juro que queria fazer algo por ela; mas como ir até lá dizer ao pai que eu podia pagar o lanche cobiçado pela filha, sem constrangê-lo, envergonhá-lo ou no mínimo deixá-lo incomodado ou estranhado com a minha intromissão? Tarde demais. Senti-me impotente mas me dei por satisfeito em desabafar tudo isso com Rose, enquanto nos deliciávamos com nossos sanduichões.
Pensei comigo: deve tê-la levado pra lanchar na Rodô, afinal de contas um trio viçosa sai por uns R$ 2,00 e uns quebradinhos; nada que tenha tanto encanto e sabor - pelo menos o sabor que ela queria tanto ter provado.
Momentos após sair do shopping e me despedir da Rose, vejo três crianças, todas por volta dos seis anos, crias de uma família de indigentes, correndo penduradas num carrinho de supermercado, por entre as privilegiadas superquadras da Asa Norte. A alegria e o prazer com que se divertem junto ao brinquedo improvisado devem fazê-las desconhecer todo aquele tanto de mundo ao redor que lhes é negado. Mas o que será delas quando não for mais possível ignorar todo o sabor atraente desse mundo? O que vai acontecer quando elas amargarem a mesma sensação de negação e privação vivida pela menina boquiaberta e fascinada - e logo em seguida, frustrada - com o colorido da praça de alimentação?
Não, eu ainda não esqueci daquela carinha deslumbrada com o novo mundo recém-descoberto, e ao mesmo tempo negado. Me comovo toda vez que me lembro, e me comove ainda mais não saber que fim teve aquele olhar de encanto ao descer a escada rolante.
Meu Deus, eu nunca vou saber.
Enquanto estávamos na fila fuçando o cardápio, não pude deixar de notar uma menina que aparentava ter uns oito, nove anos. Acompanhada de seu pai, que portava trajes um pouco surrados, vestia uma roupinha igualmente surrada, e também um pouco suja. Mesmo assim, com o mínimo de dignidade que aquelas roupas podiam lhes proporcionar, percebia-se que haviam se arrumado sim para sair e passear naquele fim de semana prolongado. Ela parou bem à nossa frente, e ficou olhando pro alto da lanchonete, boquiaberta, com os olhinhos fixos para o painel repleto de fotografias de sanduíches.
Há muito tempo eu não via tanto fascínio no rosto de uma criança.
E não se tratava do encanto de uma menina já acostumada a comer de vez em sempre naquelas lanchonetes, mas de uma que nunca tinha visto algo parecido antes, em toda sua vida. Imagine só o quanto toda aquela novidade colorida atiçava sua visão e provocava seu paladar. Dava pra ter certeza disso, só de ficar ali reparando nos seus olhinhos brilhantes, semi-lacrimejantes. Dava gosto de ver naquele rosto a alegria que precedia o prazer prestes a experimentar.
Após examinar atentamente cada imagem de sanduíche - e ainda boquiaberta - ela se virou e passou a fitar seu pai, um senhor de quarenta e tantos anos, de rosto castigado por tanto trabalho suado, mas que mal dava pra pagar um daqueles caros sanduíches. De boca aberta, mas sem articular uma só palavra, ela perguntou para o pai, com o olhar, se podia escolher um daqueles sedutores bigbob's. E o pobre-pai-pobre, com uma expressão de impotência, constrangimento e lamentação, balançou a cabeça para os lados balbuciando-lhe algumas palavras que eu entendi como "esses aí não dá não, é muito caro... 'bora ver outro lugar."
Ao se afastar da lanchonete, conduzida pelo pai, só tirou os olhos do painel do Bob's pra encarar os demais painéis, do Giraffa's ao Burger King, passando pelo McDonalds. Em vão, porque após uma volta dada por toda a praça de alimentação, o pai deve ter constatado que não tinha condições de realizar o desejo da filha.
E assim desceram pela escada rolante, em direção à saída.
Precisava pensar rápido: o que eu poderia fazer? Juro que queria fazer algo por ela; mas como ir até lá dizer ao pai que eu podia pagar o lanche cobiçado pela filha, sem constrangê-lo, envergonhá-lo ou no mínimo deixá-lo incomodado ou estranhado com a minha intromissão? Tarde demais. Senti-me impotente mas me dei por satisfeito em desabafar tudo isso com Rose, enquanto nos deliciávamos com nossos sanduichões.
Pensei comigo: deve tê-la levado pra lanchar na Rodô, afinal de contas um trio viçosa sai por uns R$ 2,00 e uns quebradinhos; nada que tenha tanto encanto e sabor - pelo menos o sabor que ela queria tanto ter provado.
Momentos após sair do shopping e me despedir da Rose, vejo três crianças, todas por volta dos seis anos, crias de uma família de indigentes, correndo penduradas num carrinho de supermercado, por entre as privilegiadas superquadras da Asa Norte. A alegria e o prazer com que se divertem junto ao brinquedo improvisado devem fazê-las desconhecer todo aquele tanto de mundo ao redor que lhes é negado. Mas o que será delas quando não for mais possível ignorar todo o sabor atraente desse mundo? O que vai acontecer quando elas amargarem a mesma sensação de negação e privação vivida pela menina boquiaberta e fascinada - e logo em seguida, frustrada - com o colorido da praça de alimentação?
Não, eu ainda não esqueci daquela carinha deslumbrada com o novo mundo recém-descoberto, e ao mesmo tempo negado. Me comovo toda vez que me lembro, e me comove ainda mais não saber que fim teve aquele olhar de encanto ao descer a escada rolante.
Meu Deus, eu nunca vou saber.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Reitoria

paródia do poema "Pescaria" de Cecília Meireles*
Gritos de protesto e de ação.
Cheio de cartazes, em cada andar.
Cheiro de tinta pelo ar.
E stencils pelo chão.
Chora o reitor de amargura,
fora de sua cobertura.
Estudantes vêm e vão,
De mãos unidas pela reitoria
onde os ocupantes estão.
Seguranças e "polícias" vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
ao andar da Ocupação.
Por isso chia, de teimosia,
o pobre reitor sem reitoria.
* poema original: http://zezepina.utopia.com.br
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Falsas atribuições de autoria
Muita gente atribui, em livros, blogs e sites, os versos abaixo a Vladimir Maiakovski:
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Esse trecho de poema – que é apenas sua segunda estrofe – foi espalhado por vários jornais e zines universitários desde o final dos anos 60. O psicanalista Roberto Freire o citou na epígrafe de seu livro “Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu” (que fez muito sucesso nos anos 70), dando crédito ao poeta russo e atribuindo ao poeta carioca Eduardo Alves da Costa sua tradução, quando na verdade era este ninguém mais ninguém menos que o próprio autor do poema... tal erro pode ter se dado em virtude do próprio título desse poema, redigido em pleno 1968: “No Caminho com Maiakovski”. Desde então, o equívoco durou décadas: Foi publicado em diversos jornais com crédito para Maiakovski, sendo estampado até em camisetas da campanha Diretas Já nos anos 80, virando símbolo da luta contra o regime militar. E o engano só veio a ser esclarecido de fato em meados de 2003, quando nosso poeta tupiniquim finalmente lançou um livro cujo título é o mesmo do poema: No Caminho com Maiakovski. Nele, há um longo poema de 89 versos dedicado a Maiakovski (anteriormente ele foi publicado e divulgado, juntamente com a falsa autoria, num formato de 15 versos isolados do poema original). Até pouco tempo atrás, o autor nunca havia recebido sequer um tostão pelos direitos de publicação desse poema.
Os mesmíssimos versos também já foram atribuídos a Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht, Wilhelm Reich, ao estadista africano Leopold Senghor e ao pastor luterano Martin Niemöller, que na verdade é autor de um poema com temática curiosamente semelhante, que circula por aí, com algumas variantes (inclusive também de autoria*):
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
Mas já não havia mais ninguém pra reclamar.
* Este texto do pastor luterano também circula por aí com a autoria atribuída a Bertolt Brecht.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Esse trecho de poema – que é apenas sua segunda estrofe – foi espalhado por vários jornais e zines universitários desde o final dos anos 60. O psicanalista Roberto Freire o citou na epígrafe de seu livro “Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu” (que fez muito sucesso nos anos 70), dando crédito ao poeta russo e atribuindo ao poeta carioca Eduardo Alves da Costa sua tradução, quando na verdade era este ninguém mais ninguém menos que o próprio autor do poema... tal erro pode ter se dado em virtude do próprio título desse poema, redigido em pleno 1968: “No Caminho com Maiakovski”. Desde então, o equívoco durou décadas: Foi publicado em diversos jornais com crédito para Maiakovski, sendo estampado até em camisetas da campanha Diretas Já nos anos 80, virando símbolo da luta contra o regime militar. E o engano só veio a ser esclarecido de fato em meados de 2003, quando nosso poeta tupiniquim finalmente lançou um livro cujo título é o mesmo do poema: No Caminho com Maiakovski. Nele, há um longo poema de 89 versos dedicado a Maiakovski (anteriormente ele foi publicado e divulgado, juntamente com a falsa autoria, num formato de 15 versos isolados do poema original). Até pouco tempo atrás, o autor nunca havia recebido sequer um tostão pelos direitos de publicação desse poema.
Os mesmíssimos versos também já foram atribuídos a Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht, Wilhelm Reich, ao estadista africano Leopold Senghor e ao pastor luterano Martin Niemöller, que na verdade é autor de um poema com temática curiosamente semelhante, que circula por aí, com algumas variantes (inclusive também de autoria*):
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
Mas já não havia mais ninguém pra reclamar.
* Este texto do pastor luterano também circula por aí com a autoria atribuída a Bertolt Brecht.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
O $egredo

Esses dias eu peguei na locadora um lançamento recente em DVD, o incensado documentário "O Segredo". Um amigo que já tinha visto disse que não era bom. Quando o peguei na locadora, um casal se dirigiu a mim dizendo que não haviam gostado. Como a minha curiosidade é sempre mais convincente do que o gosto e a opinião de amigos e desconhecidos, eu precisava assistir não só pra descobrir o segredo como pra ter o prazer de dizer que aquilo não prestava.
Dito e feito.
Logo aos primeiros 20 minutos do filme, o "filósofo" Bob Proctor faz a seguinte afirmação:
"Por que você acha que 1% da população ganha cerca de 96% de todo o dinheiro que circula? Você acha que isso é um acidente? Não é acidente! Isso é projetado para ser assim. Esse 1% entende algo. Eles entendem O Segredo, e agora você está sendo apresentado a ele..."
Isso mesmo, senhoras e senhores, em poucas palavras, o "filósofo" Bob Proctor resumiu essa grande questão histórica de um modo que nenhum outro homem jamais ousou fazer.
Pela primeira vez na minha vida eu parei de assistir a um filme (bem) antes que ele terminasse.
O segredo me custou R$ 5,00 de locação. E os inventores da idéia devem estar contentes com o sucesso que o filme está fazendo entre os que acreditaram que as desigualdades sócio-econômicas do mundo se devem ao fato de bilhões de pobres estúpidos não pensarem positivamente!
O que é mais criminoso: deixar que um cara desses ostente o título de filósofo ou acreditar na grande revelação d'O Segredo?
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Carta a colunista do Correio Braziliense
Curioso, seu Ari Cunha.
Desde que o Sr. Joaquim Roriz se tornou foco da atenção da mídia algumas semanas para cá, o Senhor não escreveu, em sua coluna no Correio Braziliense, em NENHUM DIA, UMA ÚNICA LINHA SEQUER a respeito do escândalo envolvendo o maior coronel que o Cerrado já conheceu. Se escreveu, deve ter sido uma curta e imperceptível nota, porque eu, na condição de assinante do jornal, sinceramente não vi. Mas dada a inevitabilidade (e obrigatoriedade!) desse assunto na pauta do dia durante todos esses últimos dias/semanas, o senhor ficou bastante a dever para os seus leitores diários... não se dá conta disso, velho Ari?
Por que será que TODOS OS OUTROS políticos são alvo de sua erudita ironia em sua coluna semi-diária, EXCETUANDO o "cacique" Roriz? Com sua perspicácia em escrever quando o assunto é política na esfera federal ou distrital, você pode até agradar os demais (e)leitores; mas para mim, leitor do jornal de muitos anos, ficou sempre clara a sua tendenciosidade, senhor jornalista histórico do Correio. E lá se vão anos, desde aquela inusitada aparição em uma propaganda política do então candidato Roriz... como uma intervenção "necessária", diante da "campanha de difamação" que Ricardo Noblat, então Diretor de Redação do maior jornal brasiliense, estava promovendo contra o seu aliado político. Tal aparição no horário de propaganda eleitroal nem era preciso, já que pouco antes das eleições para governador, conseguiu, com o apoio dos demais Associados, afastar definitivamente Noblat da Direção. Uma dupla comemoração, já que além disso naquela mesma ocasião Roriz venceria as eleições por uma pequenina diferença de votos sobre o adversário.
Bem, não deve ter sido apenas o leitor diário aqui que percebeu isso. Estranharia em saber que outros leitores já não tenham pensado a mesmíssima coisa. Mas devo reconhecer: manter-se silencioso sobre o caso envolvendo Roriz durante todo esse tempo, a despeito do senso crítico de todos que acompanham a sua coluna, é uma façanha e tanto. Tanto quanto adquirir uma bezerra por mais de R$ 270 mil reais.
Aquele abraço, sempre atento,
Davi Miranda
[um leitor não tão perspicaz, mas assíduo, do Correio]
sábado, 3 de março de 2007
Lenta Agonia
Morreu foi na embriaguez,
Aquela coisa bem devagar
Queria sentir d’uma só vez
Único tiro tudo acabar.
Nem o outro quis ceder
O descaso e a apatia
Um fim não fazia valer.
Talvez ela esperasse
Uma prosa ‘inda rolar
Ou quem sabe importasse
A mim novo verso tentar?
Espero vê-la mais feliz
Que podia tê-la feito
Numa só noite, Beatriz.
Pena é não ter consolo
Nesses três tristes quartetos
E mais dois tolos tercetos.
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