domingo, 22 de maio de 2005
Prisioneiro temporal
Detido num burocrático horário de 9h às 17h - sem qualquer chance de apelação em instância superior pra ser dispensado mais cedo.
Nesse exato momento meu casio exibe "15:48", mas juro que há uma hora atrás eram 15h30.
Já peguei pelo menos uns cinco copinhos de café, só na parte da tarde - como se isso puder conferir alguma velocidade maior aos ponteiros do relógio de parede da minha seção.
Não adianta. O tempo não passa.
(...)
Passa não. De jeitinho nenhum.
Estou digitando tudo isto aqui também na esperança de que o intertexto faça com que eu sinta o tempo passar mais rápido. E digo isso embasado na Teoria da Relatividade do Einstein, o primeiro a provar (?) que o tempo é relativo. Mas é provável que no tempo dele não existisse seção de trabalho tão burocrática quanto a minha.
Eis o meu karma: não importa o que eu faça, sou prisioneiro da burocracia temporal desse maldito expediente.
(...)
Passa não. De jeito nenhum.
sábado, 21 de maio de 2005
No vai-e-vem das vans
‘Bora gente, L2, L2... ‘bora moça, senta lá ó... pode ir motora... eeeei, calma aí motora, espera os passagero sentá, quase dirrubô a senhora aqui, pô...
Aqui moça, aqui ó, não vai nesse ônibus não, aqui tá vazio ó... [porra!] 'Bora...
CHEGANDO NA L2
[não, nesse ponto não motora, passa direto que ali só tem a velhinha, é passe livre]... opa, naquele lá tem mais gente... Vamo lá, RODOVIÁRIA – PÁTIO BRASIL – W3 SUL 'té o final!... vamo lá, tá vazio... 'bora moça, se enfia aqui no cantinho ó, tem espaço aqui bem do meu ladin, vai tê gente descendo ali no outro ponto... vamu lá gente! Tsc... 'bora motora...
NO PONTO DO HUB
Peraí, peraí motora, tem um busão ali atrás, 'sse cara vai quebrar a gente, deixa eu apertar o botão desse semáforo aqui... pronto... ‘bora! Tá me olhando assim por quê, senhora? O mundo é dos esperto...
Vamo lá, RODOVIÁRIA – PÁTIO BRASIL – W3 SUL 'té o final!... vamo lá, tá vazio... Ali ó jovem, lá trás, ó... cabe mais um em pé ali... pessoal aí de trás dá uma apertadinha aí pô!
FORA DO PONTO DE ÔNIBUS
Aquiaquiaqui, motora, peraíperái... aí, ô, PSSSIUUU, RODOVIÁRIA, VAI? W3 SUUL ‘TÉ O FINAL! VAI? Ei, calma aí dona, rapidin, só pegá mais uns passagero aqui... fosse a senhora lá ‘cê ia gostar não? Bora, motora...
E A VIAGEM CONTINUA
Pessoal que inda não pagô vamu adiantando as passage aí pra facilitar na descida... pô moça, tem trocado não? [‘taquiupariuéfoda...]
[Olha lá motora, olhaqueleputolá... ‘sse cara tá quebrando a gente, ultrapassa, ultrapassa 'ssa porra!] Calma senhora, tamo dentro dos limite de velocidade...
Aumenta essa sonzera aí motora... RÊÊÊÊÊÊÊÊ GOIÁS!!!... Tá alto o quê, moço? Oxi...
[totalmente baseado em fatos reais]
quinta-feira, 19 de maio de 2005
Versos perdidos da Revolução
Encontrei-o no Sebinho há algumas semanas atrás. Nunca vi um igual aquele. Na hora só pude lamentar: não posso levá-lo agora, não tenho como pagar... Então fica aí bem escondido, logo-logo volto pra te buscar: raro, velhinho, surrado, exemplar anos 50 ou 60, de uma editora que nem existe mais, versão de um tradutor brasileiro certamente de igual destino. Mal o abri, li aquele poema maravilhoso, que ficará para sempre perdido em minhas lembranças. Sim, pois em meu retorno semanas depois ao Sebinho vasculhei inutilmente a prateleira da letra M... tarde demais.
Maiakovski havia partido.
O funcionário bem que tentou me consolar: “... esquenta não camarada, Maiakovski sempre volta.” Não, kamarada. Não aquele. Era raro demais. Uma perda que dói: ainda lembro da sensação de fascínio e prazer que o poema despertou... mas não como estava escrito. Para sempre perdido como lembrança vaga, por causa daquela única palavra entre os versos a ficar retida na memória:
Amar.
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Resumo da aula de modernismo da última terça
[quase uma lei: um movimento literário surge, contesta o anterior, vai ao encontro do posterior, é negado por este e volta ao encontro do anterior]
domingo, 15 de maio de 2005
Disparidades
Até agora, nenhuma organização to(r)ta(lita)rista terrorista assumiu a autoria do atentado. O DCE, que já não vem contando mesmo com o apoio da maioria estudantil, afirmou que não podia ter mesmo "controle de tudo". O Correio falou dum suposto "Confeiteir@s sem Fronteiras", e que o autor da lambança era um "estudante que vestia paletó e camisa social". E como comprovaram que era estudante? E só estudante que protesta? É só estudante que costuma dar tortada na cara dos outros? Qualquer torta jogada na cara do reitor teria então obrigatoriamente relação com a paridade? Se pelo menos fosse uma torta bem divida em três partes iguais...
Bom, de qualquer jeito, o assunto conseguiu assim mais uma meia página nos jornais. E chegando ao campus naquele fim de tarde, conferi termos paritários saindo da boca até de quem ignorava o porquê daqueles adesivozinhos redondinhos distribuídos semanas antes.
Curioso foi a ocasião em que rolou o atentado: lançamento do livro "Os excluídos da Arca de Noé". Não poderia ser mais simbólico.
sábado, 14 de maio de 2005
Nem sempre [o momento] se encaixa
E assim acabei sintonizando outra melodia. Devo tê-la deixado feliz... queria sentir o mesmo: sair com alguém com outro alguém na cabeça é incômodo... beijar uma boca desejando outra, desanimador.
Chato quando seu timing amoroso não consegue sincronia com quem vem ao seu encontro.
segunda-feira, 9 de maio de 2005
Eu, webaholic
Nos minutos e segundos que precedem o acesso à minha caixa de entrada, uma ansiedade generalizada me impede de pensar em qualquer outra coisa até ver todas as mensagens novas. Teclo o nome de usuário errado. Atropelo a digitação da senha. Quando as vejo e finalmente consigo abri-las, uma ou outra acaba me dando pequenas sensações orgasmáticas e aquele sorriso idiota estampado na cara.
O professor informa o tema do seminário e o que me vem à cabeça é só a tela do google se abrindo com o cursor apontando em "pesquisa avançada".
Não me lembro mais quando foi que passei a dizer sempre "depois te mando um email" ao invés de "depois eu ligo pra você", ou "cê tem email?" ao invés de "qual seu número?"
(Recentemente, acho que andei soltando uns "cê tem orkut?")
Tenho encontrado pessoalmente várias pessoas que dias ou semanas antes só via na tela do meu computador - mesmo as mais distantes. (prova de que proximidade virtual leva, mais cedo ou mais tarde, irresistivelmente, fatalmente, à proximidade física)
Tenho achado mais cômodo dar cliques ou mexer na barra de rolagens do que folhear as páginas dum jornal ou livro.
(assinante do Correio acessa TODO o conteúdo pelo site!)
No trabalho, colegas têm me cutucado dizendo "anda!", "bora!" mas só depois de muito tempo dou conta que a irritação é com o tempo que passei preso entre a cadeira e o teclado; quando não são eles, é o chefe imediato perguntando sobre aquela janela minimizada ali na barra de ferramentas.
(Messenger, preciso dizer?)
E nesse exato momento tô aqui ansioso pra terminar logo esse rascunho de blog pra dar vez à Dandara que tá aqui do lado esperando sua vez no PC do CA.
(Você não tinha que terminar a apresentação do seminário de amanhã? Lembrei também que precisava passar no terminal do banco que fechou agorinha às 22h. Fodeu.)
E ainda se preocupam com cigarro e bebida... é essa dependência aqui que tá ferrando com a minha vida!
Quiçá de milhões de outras.
domingo, 8 de maio de 2005
Marias & Clarices
Feliz eterno dia das mães, Dona Clarice - onde quer que você esteja.
sexta-feira, 22 de abril de 2005
Eu vi a cara da morte e ela estava viva
Setembro de 2003. Saí depois das 23h do campus porque o filme passado na aula de Introdução à Literatura era grande. Tô atravessando a SQN 405. De longe, avistei um cachorro branco. Não era um vira-lata qualquer. Era a porra dum pitbull. Ele ficava pulando e dando voltas, soltinho, observado de longe pelo seu dono. De onde estava, aquela coisa branca já havia me avistado. Olhava, encarava-me várias vezes momentaneamente, mas logo em seguida fez como se houvesse me ignorado. Foi a deixa pra que eu traçasse uma rota paralela e não ficasse na reta dele. Não adiantou. Ele continuava pulando, dando voltas e observado pelo dono, mas foi se aproximando. Olhei pra outro lado, fingi que não estava nem aí, mas não teve jeito. Ao passar por uma distância de dez metros dele, virei apenas os olhos rapidamente pra ver se estava me encarando...
Estava.
Aquele olhar durou toda a eternidade.
Se o diabo existe, ele esteve ali, diante de mim. Lúcifer, Belzebu, Satanás... o olhar fixo daquele cachorro branco imóvel me hiptonizava e me dizia:
- Boa noite, desgraçado. Vim buscar sua alma.
Pensei que não tivesse mais que alguns segundos de vida. Não tenho nada contra morrer, pode ser hoje, pode ser mês que vem; acredito até na imortalidade da alma. O foda é ter que morrer dolorosamente, sofrer intensa e demoradamente antes do último suspiro. Nesse momento o dono parece ter se tocado e resolve chamá-lo: "Vem pra cá, Rex, volta!" (digo "Rex" porque a emoção do momento me impediu permanentemente de lembrar do nome do demônio). Mas ele continuou em meu encalço. Apesar de tudo, não deixei que a emoção mais terminal que já tive na vida tomasse o lugar da razão. Lembrei-me do que li certa vez em uma revista sobre como proceder ao ser abordado por um pitbull: diminua a velocidade do seu andar até parar. Abaixe a cabeça e não olhe mais pra ele, porque ele encara isso como um desafio e parte pro ataque logo em seguida. Vire-se vagarosamente na direção contrária e continue caminhando vagarosamente. Fiz tudo conforme recomendava a revista, e parecia que estava dando certo. Exceto por um detalhe: ele continuava a me seguir, vagarosamente... e rosnando. Baixinho. Era também um rosnado incisivo, que dizia: "Quero sua alma, AGORA, e nada nesse mundo (nem mesmo o meu dono que tá ali me chamando) me fará desistir de você, maldito que cruzou meu caminho". Minha alma nada, ele queria era o meu corpo, minha carne, meus ossos. Continuei andando, suando frio e calculando quantos segundos ainda faltava pra pensar/fazeralgumacoisa/rezar/gritarporsocorro até que estivesse finalmente despedaçado. Finalmente, não ouço mais rosnado algum. Mas só tive coragem de olhar pra trás após mais de 100 metros percorridos. Na verdade, nem me lembro de ter olhado pra trás até chegar em casa. A qualquer momento, ele soltaria o rosnado seguido do latido definitivo, antes de chegar até minha jugular. Mas não o fez. Já devia estar era longe, recolhido no apartamento com seu dono.
Acredite: uma leitura de revista na barbearia antes do corte de cabelo pode salvar sua vida. Ou pelo menos fazê-la durar mais um pouquinho até algum próximo encontro inevitável.
