segunda-feira, 20 de abril de 2015

A lei de Murphy e o hífen perdido

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais: dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. 
Edward Aloysius Murphy Jr. (1918–1990)


Lançamento da sonda Mariner I (1962)
O desastre ocorrido com a primeira sonda interplanetária dos Estados Unidos foi extremamente oneroso e quase pôs um fim prematuro a toda a exploração espacial americana. A Mariner I havia sido derrubada pela falta de um hífen.

Quando a “corrida espacial” entre os Estados Unidos e a União Soviética começou, em fins da década de 50, o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL) apresentou planos grandiosos para uma série de sofisticadas sondas espaciais, a serem denominadas Mariner. O lançamento dessas grandes sondas, contudo, dependia de um novo foguete mais poderoso, o Atlas-Centauro, cujo projeto mostrou-se problemático. O JPL, finalmente, teve de satisfazer-se com um desenho menos sofisticado, batizado, de início, Mariner Ranger, ou apenas Mariner R, que seria lançado pelos propulsores Atlas-Agena B, então disponíveis. O programa Mariner, mesmo assim, custou mais de US$ 500 milhões.

A Mariner I deveria ser a primeira espaçonave interplanetária destinada a explorar os planetas mais próximos, ou seja, Vênus, Mercúrio e Marte. A sonda não tripulada tinha asas com células para captação de energia durante a jornada e dispunha de instrumentos para estudar Vênus, o planeta almejado. Ela foi lançada em 22 de julho de 1962. Cerca de quatro minutos depois do disparo, contudo, o lançador executou uma manobra não programada e começou a desviar-se do curso. O oficial da Nasa incumbido da segurança tinha menos de um minuto para decidir entre interromper o lançamento (e destruir milhões de dólares em equipamento) ou permitir o prosseguimento do voo (e correr o risco de uma sonda espacial errante cair em área populosa ou em rota de navegação). A decisão foi de abortar a missão. 


Deu no NY Times...
Duas foram as causas do acidente, de acordo com a investigação subsequente da Nasa. Primeiro, ocorreu um problema com o sistema de orientação a rádio do foguete. Para essa eventualidade, porém, os planejadores da missão estavam preparados com um computador de orientação sobressalente que entraria em missão em caso de falha do sistema principal. Infelizmente, o programa do computador de orientação continha um erro minúsculo, mas fatídico. Faltava-lhe um único caractere, nada mais que um hífen. Em consequência do hífen perdido — possivelmente, um erro tipográfico, ou omissão do programador —, a espaçonave passou a fazer mudanças de curso desnecessárias. O hífen (indicando ajustamento estatístico) não foi incluído na expressão “R-dot-bar sub n” (“n” = valor ajustado da derivada de raio). O certo seria “R-dot-bar sub-n”. O erro levou o software a tratar pequenas variações normais de velocidade como alterações sérias, o que induziu o computador a promover automaticamente uma série de mudanças de curso, emitindo comandos de orientação impróprios, que afastaram a espaçonave do curso certo. O erro de programação não foi detectado nas verificações prévias, talvez por negligência decorrente do excesso de segurança, uma vez que o sistema de orientação a rádio nunca falhara durante os testes. Um relatório específico posterior explicou a ocorrência da seguinte forma:


“Não se sabe por quê, faltou um hífen no programa de orientação do computador de bordo, o que levou instruções falhas a comandar o foguete, desviando-o para a esquerda e para baixo... Basta dizer que a primeira tentativa de voo interplanetário dos Estados Unidos fracassou pela falta de um hífen.”

O veículo custou mais de US$ 80 milhões, o que levou o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917–2008) a referir-se ao erro como “o hífen mais dispendioso da história”.


(WEIR, Stephen. A lei de Murphy e o hífen perdido. In: ______. As piores decisões da história. Rio de Janeiro: Sextante, 2014, p. 190-193)


Observação: A verdade é que a Nasa, o escritor Arthur Clarke e o New York Times cometeram um equívoco histórico (e que perdura até hoje, tanto que foi inconscientemente reproduzido pelo autor do livro cujo trecho é supracitado) na descrição do sinal ausente como “hífen”; trata-se de um traço sobrescrito, mais conhecido como overline ou superscript bar, usada na fórmula matemática em questão: 




Tal equívoco se consagrou e até as mais diversas e recentes publicações sobre o caso falam em “hífen”. Em suma: um erro em cima de outro erro, deixando o errado ainda mais errado.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O revisor Baudelaire: Les erreurs du mal


Um livreto de 1848, que trazia um texto de Edgar Allan Poe traduzido por Baudelaire, foi destruído a pedido do tradutor por causa de um erro em seu nome. Na capa se lia “Beaudelaire”. Talvez esse evento tenha gerado uma preocupação incurável, quase enfermiça, de Baudelaire pelas erratas. Ele, descuidado com todas as suas coisas, tornou-se implacável. Corrigia pessoalmente. Mudava-se para perto da tipografia durante o período de edição de um algum de seus livros. Vigiava, pedia provas constantes. Depois do martírio desse afã de correção, a edição de As flores do mal saiu com erratas. Algumas perturbadoras, como a mudança do título de um poema, ou vie por ville. Essas erratas têm criado largas discussões entre os críticos e um elemento de imprecisão em certos poemas. O leitor, apesar do trabalho denodado de Baudelaire, ignora realmente o que disse o poeta em alguns versos. Após sua morte, as primeiras provas corrigidas por sua mão infatigável foram levadas a leilão público. Foram vendidas por 40 mil francos, valor que ele não ganhou em toda a sua vida.

(ARRUFAT, Antón. De Las Pequeñas Cosas. Valencia: Editorial Pre-Textos, 1997, p. 142-143)

Provas corrigidas de Flores do mal (1857) com diversas anotações de Baudelaire

Em dezembro de 1856, quando seu relacionamento com Michel Lévy, o editor de suas traduções de Poe, estava passando por um período difícil, Baudelaire repentinamente recorreu a Auguste Poulet-Malassis, um jovem publicador de Alençon, na Normandia. O poeta confiou ao seu futuro amigo a tarefa de imprimir e publicar um livro de poesias, em sua maior parte composto por textos reunidos durante os últimos cinco anos, e que, até então, só haviam aparecido em periódicos. Poulet-Malassis tinha a reputação de ser um editor honesto e também – o que seria o fator decisivo – um tipógrafo de categoria. A intenção era montar um livro, insistia Baudelaire, “uma obra de material bom, apesar de escasso, que parecesse substancial e fosse bem apresentado”. Uma vez que o manuscrito, preparado por um copista, tinha desaparecido, juntamente com quase todo o conjunto de provas tipográficas corrigidas, que provavelmente estavam manchadas demais para serem mantidas, essas provas de prelo são, hoje, o único documento que nos permite reconstruir a gênese de As flores do mal, da remoção da primeira dedicatória a Théophile Gautier, em 8 de março de 1857, até as últimas correções, realizadas na segunda metade de maio. Entre idas e vindas entre Alençon e Paris, elas comprovam o cuidado atento do autor para com a ortografia (moderadamente tradicional), a pontuação (de acordo com o significado, mas também com a “declamação”) e o layout. Elas registram as perguntas e os pedidos de Poulet-Malassis (raivosamente rabiscadas por Baudelaire) para corrigir e devolver rapidamente as últimas provas tipográficas. Além disso, as anotações do poeta e algumas recomendações são evidência de sua tensão nesse período crucial e da ansiedade que o tornava indiferente com relação à exasperação do editor que ele tinha escolhido, como ele o lembrava, porque ambos compartilhavam da ideia de que “em qualquer tipo de publicação, nada mais é admissível a não ser a perfeição”.

(THE EUROPEAN LIBRARY. Corrected page proofs of ‘Les Fleurs du mal’. 6 mar. 2014. Disponível em:
 <http://www.theeuropeanlibrary.org/tel4/record/1000093325392>. Acesso em: 2 abr. 2015).

domingo, 5 de abril de 2015

Mulder & Scully = Holmes & Watson

Cenas do episódio Fogo (1ª temporada, 1993). Legendas em português da Netflix

“O relacionamento entre Mulder e Scully, agentes do FBI protagonistas da série Arquivo X, é inspirado na relação entre os personagens de Sir Arthur Conan Doyle — Sherlock Holmes e John Watson, respectivamente. E ambos, Mulder e Scully, estão completamente cientes dessa semelhança. Em Fire (11º episódio da 1ª temporada, dezembro de 1993), Scully diz: ‘So, Sherlock, is the game afoot?’. E Mulder responde: ‘I’m afraid so, Watson’. A expressão vem do conto A granja da abadia (The Abbey Grange, 1904), em que Holmes diz: ‘Come Watson, come! The game is afoot!’.[1] Scully tem toda a razão: Mulder é Holmes. Ele até parece Holmes: bem-vestido, alto, magro e lânguido. Mulder também gosta de deitar e descansar assistindo à TV, assim como Holmes descansa ouvindo música; e ambos são inteiramente brilhantes (Mulder, de fato, tem uma ‘memória fotográfica’). O cenário de Arquivo X também é muito holmesiano, um aspecto criado pelo produtor da série, Rob Bowman: ‘Por causa do nevoeiro, das condições nubladas durante a maior parte do tempo e da chuva, Arquivo X manteve um pouco de Sherlock Holmes [...]’.
"Come Watson, come! The game is afoot! Not a word!
Into your clothes and come!" (Ilustração de Sidney Paget, 1904)

Scully também está certa de que ela interpreta o Watson para o Holmes de Mulder. Ela também é médica, assim como Watson. Seu papel como médica é significativo, porque os médicos são detetives, também, de alguma forma; leem sintomas do paciente e detectam a causa, por vezes, uma doença, ou às vezes um crime. Scully também está — como ela corretamente observa — quase sempre dois passos atrás de Mulder, assim como Watson em relação a Holmes. ‘O que eu estou pensando, Mulder’, diz Scully, ‘é a forma como isso me soa familiar. Interpretando Watson para o seu Sherlock. Você me exibindo pistas, uma a uma. É um jogo... e, como de costume, você está escondendo alguma coisa de mim. Você não está me dizendo alguma coisa sobre este caso’ (Fight Club, 20º episódio da 7ª temporada). Scully pode seguir Mulder, porque ela é uma detetive — está simplesmente muito mais próxima da sólida evidência empírica.
Cenas de Clube da Luta (7ª temporada, 2000)
Enquanto a mente de Mulder já andou passos à frente para uma conclusão quase sempre bizarra (‘ele é um vampiro, ou um monstro, ou um demônio, ou um alienígena’), Scully, por outro lado, pensa como nós; e nós, os espectadores, somos destinados a nos identificar com sua personagem, assim como nos identificamos com Watson. E, assim como nós aprendemos sobre o gênio de Holmes por meio das perguntas de Watson, Scully faz as nossas perguntas, e Mulder fornece as respostas brilhantes.”

(Extraído de SKOBLE, Aeon J.; SANDERS, Steven M. Philosophy of TV Noir. Lexington: University Press of Kentucky, 2008)

Vale observar o que declarou certa vez o criador da série, Chris Carter: “Eu não era um grande fã de ficção científica. Todavia, eu amava Júlio Verne e Sherlock Holmes. Ambos entraram em jogo em Arquivo X”.






[1] De acordo com Leslie Klinger, um dos maiores especialistas do mundo em Sherlock Holmes, “valendo-se de seu conhecimento de Shakespeare (adquirido, sugerem alguns, no curso de sua breve carreira de ator), Holmes parafraseia Henrique IV, parte I, Ato I, Cena 3: ‘Before the game is a-foot’ (literalmente: ‘Antes que a caça seja levantada’) e Henrique V, ato III, Cena 1: ‘The game is afoot!’. Apesar da identificação pública da expressão com Holmes, não há registro de que ele a tenha usado em outro contexto; o próprio Watson usa a expressão uma vez no conto Vila Glicínia (1908). Ela, é portanto, um grau mais respeitável que o popular ‘Elementar, meu caro Watson’, que não aparece em nenhum lugar do Cânone”. Em outras traduções publicadas em português, temos “o jogo está em andamento”; “o jogo começou” etc. A série Sherlock, da BBC, atualizou a fala de Holmes para “The game is on”.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Copidesque: o idiota da objetividade

Nelson Rodrigues (1912–1980)


“[...] o Diário Carioca mudara-se da praça Tiradentes e construíra ali, na Presidente Vargas, a sua sede própria. Em sua casa nova, iria promover uma revolução na imprensa brasileira, adotando a técnica americana de uniformizar os textos e implantando a novidade do copy-desk — o redator encarregado de escoimar as matérias de verbos como, por exemplo, escoimar. Ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos assinados, e olhe lá. As reportagens do Diário Carioca tinham de ser objetivas e, logo nas primeiras linhas, dizer quem, quando, onde, por que e como o homem mordera o cachorro. Se fosse o contrário (mesmo que atendidas as exigências do o que, quem, quando, onde, por que e como), não interessava. Isso chamava-se lead — no fundo, um simples qui, quae, quod com Ph.D. em Chicago.

A revolução do lead e do copy-desk fora implantada no Diário Carioca por Danton Jobim, diretor do jornal, e Pompeu de Souza, redator-chefe, e ameaçava espalhar-se pelos outros jornais. Danton era um velho amigo de Nelson desde A Manhã e Crítica; e Pompeu, ainda seu comparsa de garçonnière. Isso não impediu Nelson de reagir contra a instituição do copy-desk. A busca da ‘objetividade’ significava a eliminação de qualquer bijuteria verbal, de qualquer supérfluo, entre os quais os pontos de exclamação das manchetes — como se o jornal não tivesse nada a ver com a notícia. Suponha que o mundo acabasse. O Diário Carioca teria de dar essa manchete sem um mínimo de paixão. Nelson, passional como uma viúva italiana, achava aquilo um empobrecimento da notícia e passou a considerar os copy-desks os ‘idiotas da objetividade’.

‘Se o copy-desk já existisse naquele tempo’, dizia, ‘os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco.’

Nelson admitia que a imprensa do passado — a imprensa de seu pai — cometia excessos. (Certas manchetes antigas tinham três pontos de exclamação!) Mas esfriar a notícia daquele jeito, como queriam os copy-desks, pressupunha que os leitores tivessem uma alma de mármore, o que não era verdade.

[...] Quase todos os primeiros copy-desks eram amigos de Nelson, o que tornava suas provocações ainda mais saborosas. Um deles, Moacyr Werneck de Castro, fingiu suspirar fundo e admitiu para Nelson: ‘Eu sou um ‘idiota da objetividade’.”

(CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 230-231.)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um retrato do revisor no Brasil da década de 1920



Um revisor não se improvisa, nem se forma com doses de conhecimentos scientificos e literarios; é necessário ter consciência do que vae emendar, calma suficiente para analysar o que estiver errado, fora de concordância, ou de duvida; marcando, com os signaes especiaes usados, á margem das provas, com clareza e precisão, para serem compreendidos pelos typographos.

Uma bôa parte dos que se empregam neste mistér são os estudantes e funccionarios públicos, os quaes, contando com suas mesadas ou ordenados, pouco interesse tomam (com raras excepções) por esse estafante serviço; não precisam mais que uma fumaça de ilustração e o conhecimento de alguns signaes empregados na revisão de provas.

Em a minha longa pratica de imprensa tenho visto entrarem, apresentados pelos responsáveis de empresas jornalísticas, com as phrases da etiqueta:

— O Sr. F..., acadêmico; vem trabalhar aqui na revisão.

Este moço, acanhado a principio, nem sabe o que se faz para rever uma prova, nunca transpoz os humbraes de uma officina; tudo o surprehende; senta-se, toma de uma prova, começa a mirar os hieroglyphos postos á margem... e, complacente, o collega entrega-lhe um original para que ele o acompanhe na leitura; depois palestra com o companheiro e... em tres tempos está feito revisor, sem ter passado a vista num compendio de Arte Typographica.

Outros há, porém, que levam a cousa mais a serio: são os que tiram dessa ingrata profissão os meios de subsistencia.

Mas... são tão mal remunerados os revisores, que não vale critical-os. Entretanto, é tão delicada a sua função entre o industrial e o escriptor! Cada qual responsabiliza-o pelos fracassos e pelos erros contidos numa obra exposta á publicidade.

[...]

Um bom revisor deve ser um homem ilustrado, conhecedor das diferentes orthographias, das actividades humanas, das sciencias, da literatura, das regras de sports, das artes em geral e das operações, para poder se eximir da critica e das responsabilidades.

[...]

Nos tempos modernos, nos nossos dias, o revisor é quase um anonymo no trabalho de uma imprensa, escondido, muita vez, no canto escuro da sala, a desenhar signaes á margem das provas, é o bode expiatório de todas as culpas. Nenhum autor o cita, nem faz menção destes humildes collaboradores. Se o livro sahe perfeito, todo o aplauso é para o editor ou para a empresa, mas se houve descuido, errata ou galhas, é a revisão quem paga.

Autores descuidosos desculpam-se das faltas grammaticaes com o celebre erro de revisão; os legisladores, com a chapa, em nota, no fim da pagina: reproduzido por ter sahido com incorreções; ou aliás, para salvar aparências: este discurso não foi revisto pelo orador. Na verdade é que ninguém quer ser o culpado, só o revisor é o unico responsável; para elle todo o castigo é pouco... mesmo aquelle que, na China mandava cortar a cabeça do revisor.


(FONSECA, Arthur Arezio. Revisão de provas typographicas. Salvador: Imprensa Official, 1925)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Biobibliografia



É o outono do patriarca, mas ninguém escreve ao coronel, que conheceu o amor nos tempos do cólera, mas viveu cem anos de solidão. Por isso, em má hora, ele tomou o veneno da madrugada, como na crônica de uma morte anunciada. Agora, todos seguem para o enterro do diabo: ele, um senhor muito velho com umas asas enormes, embarcou na última viagem do navio fantasma, levando consigo apenas a memória de suas putas tristes.

domingo, 13 de abril de 2014

O dedo médio em riste na literatura latina

Il dito, escultura de Maurizio Cattelan, em Milão, Itália.


[...] O aspecto mais surpreendente é que certos gestos significam a mesma ideia, materializam o mesmo pensamento, nas regiões mais distantes e diversas do mundo. A linguagem não conseguiu esta universalidade. [...] O dedo malévolo é o médio. Pérsio, poeta satírico da Roma Antiga, o denomina infami digito (Sátira, II, v. 33). Era o dedo com que as feiticeiras misturavam as essências mágicas. Mox turbatum sputo pulverem medio sustulit digito, descreve o prosador Petrônio em Satyricon. Com poeira e saliva, a velha romana fez o unguento que passou na testa do herói pretoniano, usando o dedo médio. Significa o membro viril.


O poeta latino Marco Valério Marcial, em epigrama contra Sextilo, cita o gesto deste, mostrando-lhe o dedo médio como resposta às suas malícias: digitum porrigito medium. Em epigrama dedicado a Marciano, lembra que este zombava com o dedo impudico, signo obsceno: ostendit digitum, sed impudicum.


Anterior a todos esses era Plauto, o dramaturgo. Na comédia Pseudolus, há uma cena típica do costume. Quando Hárpax procura Bálio, alugador de prostitutas, está com ele Simão. Ouvindo o recado de Hárpax, Simão informa, decisivo: “Ó homem da clâmide, defende-te dessa funesta aventura. Mostra-lhe o dedo! É um prostituidor!”.


O gesto continua contemporâneo.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições e costumes. Rio de Janeiro: Antunes & Cia., 1958, com adaptações)

sexta-feira, 28 de março de 2014

A dura vida dos revisores na França dos séculos XVI e XVII

Ateliê de impressão no séc. XVI (arte de Giovanni Stradano, 1570).


[...] Para se ter uma ideia da importância associada antigamente às funções do revisor e da responsabilidade que pesava sobre ele, citaremos um édito de Francisco I, de 31 de agosto de 1539, cujo artigo 17 traz:

Se os mestres impressores dos livros em latim não são sábios e suficientes para corrigir os livros que imprimirão, serão obrigados a ter revisores suficientes, sob pena de multa arbitrária; e serão responsáveis os ditos revisores, bem e cuidadosamente, por corrigir os livros, devolver seus livros nas horas de antigo costume e em tudo fazer seu dever; de outro modo, serão responsáveis pelas perdas e danos incorridos por seu erro e culpa.


Outro édito de Luís XIV, datado do mês de agosto de 1686, renova essa prescrição nos seguintes termos:


Os revisores são obrigados, bem e cuidadosamente, a corrigir os livros; e, em caso de por erro seu haver obrigação de reimprimir as folhas que lhe foram sido dadas para corrigir, elas serão reimpressas às custas dos revisores.


(FOURNIER, Henri. Traité de la typographie. Tours: Alfred Mame et fils, Editeurs, 1870. p. 263.)


Agradeço a Débora Castro a gentileza de ter traduzido trechos da obra original em francês.

quinta-feira, 27 de março de 2014

No consultório de psicanálise sintática

— Tava indo tão bem... daí, no meio do bate-papo, teclei isso [mostra o bate-papo no smartphone: Concerteza, vamos nus encontrar! Derrepente rola apartir das 7h. Aonde a agente se vê?]. Daí ela silenciou, depois ficou off-line e me bloqueou...

— Entendi. Você tem dificuldade em separar as coisas. Começaremos o tratamento com análise... morfológica. Só após isso é que focalizaremos na recuperação de sua autoestima.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Certa noite no Bar Brasília

— Tava tudo chegando aonde eu queria chegar. Ela já tinha entrado no clima. Faltava pouco pra conquistá-la de vez.
—... Sério?
— Seriíssimo.
— ... e aí...?
— Daí cheguei mais perto, bem devagarinho, com todo cuidado, e lhe propus discretamente minha oferta ao pé do ouvido: "R$ 25,00 a lauda".
— E aí? Ela topou??
— Que nada. Saiu correndo...
— Tsc, ah, que cliente fresca...

‪#‎contosdefreelancer‬

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A menina que cagava regras


Numa era de total permissividade linguística, uma professora purista, perseguida por anarcolinguistas que tomaram o poder no país, foge para longe e deixa sua filha, Liesel, aos cuidados do professor Bechara. Certo dia, a menina é levada a um sebo, ocasião em que vê um livreiro deixar cair uma gramática, que é rapidamente surrupiada por ela. Liesel toma gosto pela coisa e começa a roubar diferentes gramáticas de bibliotecas e livrarias, decorando-as com o único propósito de passar o dia inteiro xaropando amiguinhos, familiares e quem mais encontrasse pela frente, corrigindo suas falas, seus erros de escrita e cagando regras gramaticais para tudo quanto é lado.

Direção: Martin Portuguese
Indicado ao Oscar de Melhor Legenda Revisada

sábado, 18 de janeiro de 2014

Rolezinho das variantes linguísticas na ABL acaba em confusão

Shopping Academia, um dia antes do rolezinho: tranquilidade e harmonia desejada pelos falantes de bem

RIO DE JANEIRO — A gramática tradicional está em alerta diante do que se convencionou chamar de "rolezinho linguístico”, novo fenômeno social surgido no país. Trata-se de evento organizado por variantes linguísticas estigmatizadas das periferias, que elegeram os espaços tradicionalmente ocupados pela norma-padrão para abrigar grande número de dialetos populares, garantindo locais com infraestrutura de destaque para promover seu discurso.

Embora entrem silenciosamente nos shoppings, em pouco tempo já se encontram promovendo a pronúncia de inúmeros erros gramaticais, escandalizando puristas e usuários cultos. As variantes populares se reúnem em bandos e passeiam pelos corredores entoando barbarismos, solecismos, cacófatos, plebeísmos e outros vícios de linguagem, formando um verdadeiro bonde de palavras incultas, o que tem horrorizado as gramáticas de família.


Ontem, a Academia Brasileira de Letras — um dos points mais prestigiados da norma-padrão — foi ocupada por centenas de dialetos das periferias. Elas alegavam querer apenas
“interação com as formas mais cultas, conhecer novas gírias, grafitar uns barbarismos e compartilhar solecismos”, o que foi o suficiente para deixar os puristas — tradicionais frequentadores — apavorados.

“Após o ocorrido, solicitamos à Secretaria de Segurança Culta uma correção linguística desses arrastões verbais. A Polícia Gramatical se viu incapaz de agir contra toda aquela multidão de dialetos, levando a Academia a fechar as portas mais cedo”, disse Olavo Bilac, secretário-geral da ABL.

 “Antes de tudo, eu gostaria de deixar bem claro que não tenho contra essas... essas... falas diferenciadas... mas outro dia vi um bando de pleonasmos viciosos transitando por aqui, exalando um discurso vulgar, sem erudição e completamente fora do nosso contexto, dos nossos padrões... Que eu saiba, isto aqui ainda é um lugar onde habita, em sua forma mais pura, a língua de Ruy Barbosa!”, queixou-se uma usuária da norma-padrão, assídua frequentadora do shopping Academia.“É lamentável ver uma língua de família exposta a essas perigosas variações”, disse um idoso, fiel seguidor da norma, lamentando o fato de as variantes ainda não se converterem ao padrão. “Querem lazer? Então leiam! Querem consumir? Então consumam isto”, diz ele, apontando para um exemplar da Gramática Arcaica da Língua Portuguesa.

Adotando um discurso moderado, o deputado gramatical Evanildo Bechara tem visão diferente do assunto:
“A Academia tem a obrigação de proteger a norma-padrão. Só que ela também não pode discriminar nem condenar os dialetos, mandando recolhê-los apenas baseada em estereótipos, como o uso de variações populares, por exemplo. Ora, ela atende a todo o público falante, é responsável pela estabilidade e preservação da língua culta, mas deve fazer isso sem preconceito linguístico”, alertou o deputado, que apresentará em breve ao Congresso Nacional um projeto de norma que aprove certas variações populares que já se consolidaram na linguagem culta, conferindo-lhes o status de "corretas", isto é, aceitas pela norma-padrão.


Seguranças abordam variantes na praça de alimentação do Shopping Academia (RJ)



O comandante da Polícia Gramatical informou hoje que a ordem é impedir a contaminação do ambiente linguístico com erros crassos: “A norma é clara: dialetos não se misturam com as formas corretas da língua
”. E complementa: “Isso não é nenhuma discriminação contra as variantes. Nada contra elas, mas sim contra os abusos que elas fazem das variações. Até aceitamos o uso de ‘chegar NO shopping' em vez de ‘chegar AO shopping’; de ‘assistir O filme’, com transitividade direta, em vez da forma prevista, ‘assistir AO filme’; do uso indiscriminado e aleatório de ‘esse' e ‘este'; mas formas viciadas como ‘nós entra na loja’, ‘os mano toca os funk', ‘os tênis mais filé já foram comprado’ são formas muito degeneradas do português para circularem por aqui e contaminam o espaço culto. Não iremos tolerar esses abusos”.

Para o bispo Napoleão Mendes de Almeida, da Igreja Gramatical da Língua de Portugal, a presença das variantes no altar da norma-padrão é nociva porque
“elas são portadoras de vícios linguísticos que deturpam, desvirtuam a forma mais chique e luxuosa do português”.

Já os sociólogos da linguagem saíram em defesa das variantes: de acordo com Marcos Bagno, “isso era inevitável. Resistir é inútil! Entre os dialetos cultos e os da periferia, há toda uma zona intermediária onde se dão influências recíprocas. Cedo ou tarde, certas formas condenadas podem se apropriar do espaço culto até serem aceitas pelos falantes de luxo. Deveríamos era aproveitar a oportunidade e acabar de uma vez com esse apartheid linguístico que oprime a maioria das variantes
”, declarou.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Erros de revisão que custaram uma vida



“Em 12 de junho de 1712, o papa Clemente XI encontrava-se repousando em Castel Gandolfo, para onde se pôs a caminho o poeta Alessandro Guidi a fim de prestar-lhe homenagem por meio de uma imponente publicação — Sei Omelie, tradução de pregações em latim do papa —, um dos mais queridos e apreciados frutos de seu engenho; porém, ao folhear o livro que tinha em suas mãos, Guidi deparou-se com ERROS DE REVISÃO, apesar de todo o seu cuidado; e tal visão tanto o consumiu e perturbou seu coração que nos arredores de Frascati foi surpreendido por uma apoplexia [AVC], que poucas horas de vida lhe concedeu.”

(extraído e adaptado de TURRONI, Girolamo. Elogio di Alessandro Guidi. Pavia: Tipografia di Pietro Bizzoni, 1827, p. 66.)



* Agradeço ao Marlon Magno a gentileza de ter traduzido trechos da obra original em italiano.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"O danado é que a agressão escapou aos revisores..."


“Na visita de D. Pedro II ao Recife, coube ao jornal Diário de Pernambuco emprestar o maior brilho no rol das homenagens. [...] Os melhores redatores teceram-lhe ditirambos em prosa e verso pelas honras de que o Recife se fazia merecedor com a majestade de tão real visitante. [...] Por outro lado, conta-se que da parte do pessoal gráfico um fato ocorreu de modo condenável. Numa das matérias da visita imperial, ao pé da composição e como se continuando com o seu texto, um dos tipógrafos ajuntara uma frase ofensiva a Sua Majestade:

‘Vem aí o sacana-mor do Império.’

O danado é que a agressão escapou aos revisores. A matéria saiu com aquele insulto e, ao que se supõe, a edição foi recolhida, sendo raro encontrar-se exemplar com o ostensivo e gratuito protesto partido certamente de algum operário gráfico de ideias republicanas.”

(JAMBO, Arnoldo. Diário de Pernambuco: história e jornal de quinze décadas. Recife: Diário de Pernambuco, 1975, p. 196)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O revisor de texto nos anos 50


“O revisor é muito frequentemente um empregado desvalorizado, cujos serviços são considerados por vezes supérfluos. Em muitas tipografias, fica relegado a um cubículo pequeno e abafado que não pode ser aproveitado para outro fim, ou fica encarcerado num desvão de um canto de sala. Idealmente, necessitaria de luz e ar, tudo o que conduzisse à acuidade mental e à perspicácia visual; e, às vezes, ele consegue esse ideal ou algo parecido.

É um engano, e sério e bobo engano, subestimar o revisor, pois dele depende não pouco da reputação de uma casa impressora; e ele pode, ademais, ser o meio para prevenir ações legais de difamação e prejuízos.

Os revisores trabalham ou juntos no mesmo local ou em algumas impressoras em seu compartimento próprio. Assistindo-os, há umas quantas moças ou rapazes, chamados leitores. A tarefa do revisor é descobrir quaisquer erros que tenham sido cometidos na composição e dar instruções para sua correção, e também zelar por que os enganos do próprio autor sejam evitados, chamando, se for o caso, a atenção deste.

[...] De preferência, qualquer livro deverá ser lido antes em sua inteireza pelo revisor. O leitor é então chamado a ler alto, do manuscrito ou do original datilográfico do autor, enquanto o revisor acompanha as palavras da prova, comparando-as com as da leitura, vigiando os erros tanto da composição quanto do leitor, e também do autor, evitando as letras de fontes estranhas que se possam ter infiltrado no texto composto, observando os pontos que possam ser objeto de ação legal ou o que quer que seja que possa comprometer a boa reputação da casa ou possa levá-la a complicações legais.”

(The Making of Books, Sean Jennett, 1956, p. 103. Trecho traduzido por Antônio Houaiss em Elementos de Bibliologia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fábulas Pornomorfológicas (I)



Certa manhã de janeiro de 2009, na fazenda Dicionário...

— Ei! Cadê meus hifens? — perguntou o bumba meu boi.

— O novo Acordo Ortográfico mandou recolher tudo... também fiquei sem nada — disse o pé de moleque.

— Mas que abuso... Isso sim é o que eu chamo de lesa-ortografia! Mas já dou um jeito nisso... — e saiu à cata de pronomes pessoais. Não demorou muito pra se esbarrar com um tezinho:

— Ei, pronominho, vem cá... Tá vendo aquele verbo “darei” ali? Tá ali, só no futuro do presente, te dando mó mole! Tá esperando o quê, tezinho? Vai lá, rapaz, faz mesóclise com ele!

O pronome não pensou duas vezes: partiu pro bote e se enfiou bem no meio do verbo, formando um “dar-te-ei”. Era tudo de que bumba meu boi precisava:

— Que tal rolar uma próclise agora? Hummm... Mandou bem, hein, pronominho? Ficou bem assim. Bom, vou aproveitar e levar esses hifens, ok? Com a crise da Reforma, tem muita locução carente por aí precisando disso aqui.

E assim o bumba-meu-boi se mandou, vestido e feliz, com sua antiga ortografia.


Moral da história: “Em terra de reforma ortográfica, quem tem um hífen é rei”.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O advogado e a gramática: casa de ferreiro, espeto de pau

O projeto "Sinal do Saber" foi lançado em julho de 2013


Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão
e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho?

(Mateus 7: 3)


Lutero de Paiva, um advogado de Maringá, tomou a iniciativa de transmitir, por meio de faixas, várias lições gramaticais à população: “Não existe a palavra menas, somente menos”; “O plural é troféus e não troféis”; “Não é perca de tempo, mas perda de tempo”; “O correto é casa geminada e não germinada”; “O plural é cidadãos e não cidadões”. Você pode conferir aqui a reportagem do G1.

O projeto foi além dos sinaleiros e já toma conta até de canteiros de obra, onde se tenta corrigir a fala dos pedreiros: “mulher” em vez de “muié”; “betoneira” em vez de “bitoneira”; “vassoura” em vez de “bassoura”. Embora não exista motivo para questionar a boa vontade e a intenção do dotô,  é curioso notar que esse incômodo em relação aos (maus?) usos linguísticos parece não levar certos profissionais de nível superior a questionarem o próprio domínio sobre a norma culta que tanto desejam ver defendida e usada.

Ora, o advogado está implicando com os vícios de linguagem de outras classes (sociais e profissionais) ao mesmo tempo que não atenta para os vícios de sua própria classe, cujo juridiquês — ao contrário da linguagem popular e coloquial, que todo mundo consegue entender — se torna cada vez mais distante de uma linguagem objetiva, direta e inteligível! Se prestarmos atenção direitinho à questão, perceberemos que os usos formais — porém viciados — dos advogados são mais preocupantes e prejudiciais à comunicação e à praticidade do cotidiano do que os usos informais dos pedreiros que desejam corrigir.

É possível notar também certo ranço de indisposição com os usos populares. Não tenho nada contra o potencial criativo do juridiquês, mas se os advogados se reservam o direito de criar neologismos como “inobstante” e “presentante”, por que se incomodar com variações surgidas entre falantes de âmbitos menos cultos?


Lutero quer combater o uso dos "vícios de linguagem"

Ora, o chicote do rigor deve ser compartilhado com todos. O que eu recomendo é que ele aproveite a oportunidade de, ao mesmo tempo que tenta esclarecer os incultos sobre as formas ditas corretas,  também elaborar as seguintes faixas: 

“Advogado, você sabia que o correto é uma vez que e não de vez que ou vez que?”

“O correto é por via de regra e não via de regra.”

“A palavra alegativa não tem registro dicionarizado; em seu lugar, use alegação.”

“Não se diz lado outro, e sim por outro lado.”

“Face a é expressão errada. Use em face de ou em face a.”

“O verbo da expressão no que pertine não existe!”

Essas são apenas algumas sugestões. Talvez dê um trabalhão criar banners para cada vício advocatício, mas garanto que tal medida, se levada adiante, poderia se mostrar tão útil quanto aquela tomada recentemente pelo dotô.

Vale observar que o ímpeto de Lutero não é novidade em seu meio. Durante a primeira década do século XX, o (rufem os tambores!) grande jurista Ruy Barbosa travou um histórico duelo gramatical com seu antigo mestre, o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro: a chamada revisão do Código Civil (1902-1905), considerada por Leite (1999, p. 76) “o maior símbolo do purismo linguístico do português do Brasil”, é um episódio que ilustra perfeitamente a manutenção de um critério de correção que não se pautasse pela forma (falada e) escrita no Brasil, tal era o apego ao português lusitano.


Carneiro Ribeiro (1839–1920). Segundo Piacentini,
"o maior gramático que o Brasil já teve".


Ruy, chamado por Monteiro Lobato de “canto de cisne da língua portuguesa”, era defensor fervoroso da “ideia de uma língua em uso por autores portugueses canônicos” (MARIANI, 2011, p. 253) e combateu a redação dada ao projeto do Código Civil, então abonada por Carneiro Ribeiro, que defendia a normatização de peculiaridades do português falado no Brasil  (em resposta a seu ex-discípulo, o gramático afirmou que “temos, logo, razão de dizer: o purismo exagerado, intransigente, é impossível, perante o estudo histórico das línguas”). Até hoje, a famosa Réplica (1902) de Ruy é lembrada como espécie de obra-prima da defesa do português culto, mas não se pode ignorar o fato de que sempre lhe foi atribuída uma autoridade e um conhecimento dos quais carecia (como o saber filológico, por exemplo).

Você duvida? Os fãs do Águia de Haia odiarão ler as próximas linhas: “É surpreendente que ele mesmo [Ruy Barbosa] incida em numerosas incorreções que implacavelmente condenava, como, num dos excertos [...] citados: ‘Escasseava-lhe [...] as luzes indispensáveis’, ou, incansável caçador de cacófatos, ao defender-se das acusações de que também os cometia: ‘Sendo, porém, a coisa desprezível [...] eu me não ocuparia [...]’”. Além disso, Barbosa “se colocava na posição de quem decide o que é vernáculo e o que não o é” (MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira, vol. V, 1879-1914, p. 170).

Como se pode constatar, trata-se de um mal histórico da classe advocatícia.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

COmédiA da vIda TiPoGráfiCA (I)


— E aquele tipo sem serifa bebendo sozinho e cabisbaixo naquela mesa?

— Ah, é do tipo que vive interessado em gente serifada que nem liga pra ele.

domingo, 22 de setembro de 2013

Um curso maldito desde sempre



“[...] ocorreram nessa relação alguns problemas. [...] um segundo problema se dava os gênios de Sr. Allan e de Edgar Allan Poe. O Sr. Allan gostava de coisas que o poeta não gostava: queria que estudasse Direito, Poe preferia as Letras [...].”

(Edgar Allan Poe: um homem em sua sombra, Ricardo Araújo, p. 33)


Moral da HISTÓRIA: Nada mudou até hoje. Desde sempre, pais querem que os filhos façam Direito ou Medicina, e não esses malditos cursinhos de Letras.