domingo, 13 de abril de 2014

O dedo médio em riste na literatura latina

Il dito, escultura de Maurizio Cattelan, em Milão, Itália.


[...] O aspecto mais surpreendente é que certos gestos significam a mesma ideia, materializam o mesmo pensamento, nas regiões mais distantes e diversas do mundo. A linguagem não conseguiu esta universalidade. [...] O dedo malévolo é o médio. Pérsio, poeta satírico da Roma Antiga, o denomina infami digito (Sátira, II, v. 33). Era o dedo com que as feiticeiras misturavam as essências mágicas. Mox turbatum sputo pulverem medio sustulit digito, descreve o prosador Petrônio em Satyricon. Com poeira e saliva, a velha romana fez o unguento que passou na testa do herói pretoniano, usando o dedo médio. Significa o membro viril.


O poeta latino Marco Valério Marcial, em epigrama contra Sextilo, cita o gesto deste, mostrando-lhe o dedo médio como resposta às suas malícias: digitum porrigito medium. Em epigrama dedicado a Marciano, lembra que este zombava com o dedo impudico, signo obsceno: ostendit digitum, sed impudicum.


Anterior a todos esses era Plauto, o dramaturgo. Na comédia Pseudolus, há uma cena típica do costume. Quando Hárpax procura Bálio, alugador de prostitutas, está com ele Simão. Ouvindo o recado de Hárpax, Simão informa, decisivo: “Ó homem da clâmide, defende-te dessa funesta aventura. Mostra-lhe o dedo! É um prostituidor!”.


O gesto continua contemporâneo.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições e costumes. Rio de Janeiro: Antunes & Cia., 1958, com adaptações)

sexta-feira, 28 de março de 2014

A dura vida dos revisores na França dos séculos XVI e XVII

Ateliê de impressão no séc. XVI (arte de Giovanni Stradano, 1570).


[...] Para se ter uma ideia da importância associada antigamente às funções do revisor e da responsabilidade que pesava sobre ele, citaremos um édito de Francisco I, de 31 de agosto de 1539, cujo artigo 17 traz:

Se os mestres impressores dos livros em latim não são sábios e suficientes para corrigir os livros que imprimirão, serão obrigados a ter revisores suficientes, sob pena de multa arbitrária; e serão responsáveis os ditos revisores, bem e cuidadosamente, por corrigir os livros, devolver seus livros nas horas de antigo costume e em tudo fazer seu dever; de outro modo, serão responsáveis pelas perdas e danos incorridos por seu erro e culpa.


Outro édito de Luís XIV, datado do mês de agosto de 1686, renova essa prescrição nos seguintes termos:


Os revisores são obrigados, bem e cuidadosamente, a corrigir os livros; e, em caso de por erro seu haver obrigação de reimprimir as folhas que lhe foram sido dadas para corrigir, elas serão reimpressas às custas dos revisores.


(FOURNIER, Henri. Traité de la typographie. Tours: Alfred Mame et fils, Editeurs, 1870. p. 263.)


Agradeço a Débora Castro a gentileza de ter traduzido trechos da obra original em francês.

quinta-feira, 27 de março de 2014

No consultório de psicanálise sintática

— Tava indo tão bem... daí, no meio do bate-papo, teclei isso [mostra o bate-papo no smartphone: Concerteza, vamos nus encontrar! Derrepente rola apartir das 7h. Aonde a agente se vê?]. Daí ela silenciou, depois ficou off-line e me bloqueou...

— Entendi. Você tem dificuldade em separar as coisas. Começaremos o tratamento com análise... morfológica. Só após isso é que focalizaremos na recuperação de sua autoestima.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Certa noite no Bar Brasília

— Tava tudo chegando aonde eu queria chegar. Ela já tinha entrado no clima. Faltava pouco pra conquistá-la de vez.
—... Sério?
— Seriíssimo.
— ... e aí...?
— Daí cheguei mais perto, bem devagarinho, com todo cuidado, e lhe propus discretamente minha oferta ao pé do ouvido: "R$ 25,00 a lauda".
— E aí? Ela topou??
— Que nada. Saiu correndo...
— Tsc, ah, que cliente fresca...

‪#‎contosdefreelancer‬

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A menina que cagava regras


Numa era de total permissividade linguística, uma professora purista, perseguida por anarcolinguistas que tomaram o poder no país, foge para longe e deixa sua filha, Liesel, aos cuidados do professor Bechara. Certo dia, a menina é levada a um sebo, ocasião em que vê um livreiro deixar cair uma gramática, que é rapidamente surrupiada por ela. Liesel toma gosto pela coisa e começa a roubar diferentes gramáticas de bibliotecas e livrarias, decorando-as com o único propósito de passar o dia inteiro xaropando amiguinhos, familiares e quem mais encontrasse pela frente, corrigindo suas falas, seus erros de escrita e cagando regras gramaticais para tudo quanto é lado.

Direção: Martin Portuguese
Indicado ao Oscar de Melhor Legenda Revisada

sábado, 18 de janeiro de 2014

Rolezinho das variantes linguísticas na ABL acaba em confusão

Shopping Academia, um dia antes do rolezinho: tranquilidade e harmonia desejada pelos falantes de bem

RIO DE JANEIRO — A gramática tradicional está em alerta diante do que se convencionou chamar de "rolezinho linguístico, novo fenômeno social surgido no país. Trata-se de evento organizado por variantes linguísticas estigmatizadas das periferias, que elegeram os espaços tradicionalmente ocupados pela norma-padrão para abrigar grande número de dialetos populares, garantindo locais com infraestrutura de destaque para promover seu discurso.

Embora entrem silenciosamente nos shoppings, em pouco tempo já se encontram promovendo a pronúncia de inúmeros erros gramaticais, escandalizando puristas e usuários cultos. As variantes populares se reúnem em bandos e passeiam pelos corredores entoando barbarismos, solecismos, cacófatos, plebeísmos e outros vícios de linguagem, formando um verdadeiro bonde de palavras incultas, o que tem horrorizado as gramáticas de família.


Ontem, a Academia Brasileira de Letras — um dos points mais prestigiados da norma-padrão — foi ocupada por centenas de dialetos das periferias. Elas alegavam querer apenas
interação com as formas mais cultas, conhecer novas gírias, grafitar uns barbarismos e compartilhar solecismos, o que foi o suficiente para deixar os puristas — tradicionais frequentadores — apavorados.

Após o ocorrido, solicitamos à Secretaria de Segurança Culta uma correção linguística desses arrastões verbais. A Polícia Gramatical se viu incapaz de agir contra toda aquela multidão de dialetos, levando a Academia a fechar as portas mais cedo, disse Olavo Bilac, secretário-geral da ABL.

 “Antes de tudo, eu gostaria de deixar bem claro que não tenho contra essas... essas... falas diferenciadas... mas outro dia vi um bando de pleonasmos viciosos transitando por aqui, exalando um discurso vulgar, sem erudição e completamente fora do nosso contexto, dos nossos padrões... Que eu saiba, isto aqui ainda é um lugar onde habita, em sua forma mais pura, a língua de Ruy Barbosa!, queixou-se uma usuária da norma-padrão, assídua frequentadora do shopping Academia.É lamentável ver uma língua de família exposta a essas perigosas variações, disse um idoso, fiel seguidor da norma, lamentando o fato de as variantes ainda não se converterem ao padrão. Querem lazer? Então leiam! Querem consumir? Então consumam isto, diz ele, apontando para um exemplar da Gramática Arcaica da Língua Portuguesa.

Adotando um discurso moderado, o deputado gramatical Evanildo Bechara tem visão diferente do assunto:
A Academia tem a obrigação de proteger a norma-padrão. Só que ela também não pode discriminar nem condenar os dialetos, mandando recolhê-los apenas baseada em estereótipos, como o uso de variações populares, por exemplo. Ora, ela atende a todo o público falante, é responsável pela estabilidade e preservação da língua culta, mas deve fazer isso sem preconceito linguístico”, alertou o deputado, que apresentará em breve ao Congresso Nacional um projeto de norma que aprove certas variações populares que já se consolidaram na linguagem culta, conferindo-lhes o status de "corretas", isto é, aceitas pela norma-padrão.


Seguranças abordam variantes na praça de alimentação do Shopping Academia (RJ)



O comandante da Polícia Gramatical informou hoje que a ordem é impedir a contaminação do ambiente linguístico com erros crassos: “A norma é clara: dialetos não se misturam com as formas corretas da língua
. E complementa: “Isso não é nenhuma discriminação contra as variantes. Nada contra elas, mas sim contra os abusos que elas fazem das variações. Até aceitamos o uso de ‘chegar NO shopping' em vez de ‘chegar AO shopping’; de ‘assistir O filme’, com transitividade direta, em vez da forma prevista, ‘assistir AO filme’; do uso indiscriminado e aleatório de ‘esse' e ‘este'; mas formas viciadas como ‘nós entra na loja’, ‘os mano toca os funk', ‘os tênis mais filé já foram comprado’ são formas muito degeneradas do português para circularem por aqui e contaminam o espaço culto. Não iremos tolerar esses abusos.

Para o bispo Napoleão Mendes de Almeida, da Igreja Gramatical da Língua de Portugal, a presença das variantes no altar da norma-padrão é nociva porque
“elas são portadoras de vícios linguísticos que deturpam, desvirtuam a forma mais chique e luxuosa do português.

Já os sociólogos da linguagem saíram em defesa das variantes: de acordo com Marcos Bagno, “isso era inevitável. Resistir é inútil! Entre os dialetos cultos e os da periferia, há toda uma zona intermediária onde se dão influências recíprocas. Cedo ou tarde, certas formas condenadas podem se apropriar do espaço culto até serem aceitas pelos falantes de luxo. Deveríamos era aproveitar a oportunidade e acabar de uma vez com esse apartheid linguístico que oprime a maioria das variantes
, declarou.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Erros de revisão que custaram uma vida



“Em 12 de junho de 1712, o papa Clemente XI encontrava-se repousando em Castel Gandolfo, para onde se pôs a caminho o poeta Alessandro Guidi a fim de prestar-lhe homenagem por meio de uma imponente publicação — Sei Omelie, tradução de pregações em latim do papa —, um dos mais queridos e apreciados frutos de seu engenho; porém, ao folhear o livro que tinha em suas mãos, Guidi deparou-se com ERROS DE REVISÃO, apesar de todo o seu cuidado; e tal visão tanto o consumiu e perturbou seu coração que nos arredores de Frascati foi surpreendido por uma apoplexia [AVC], que poucas horas de vida lhe concedeu.”

(extraído e adaptado de TURRONI, Girolamo. Elogio di Alessandro Guidi. Pavia: Tipografia di Pietro Bizzoni, 1827, p. 66.)



* Agradeço ao Marlon Magno a gentileza de ter traduzido trechos da obra original em italiano.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"O danado é que a agressão escapou aos revisores..."


Na visita de D. Pedro II ao Recife, coube ao jornal Diário de Pernambuco emprestar o maior brilho no rol das homenagens. [...] Os melhores redatores teceram-lhe ditirambos em prosa e verso pelas honras de que o Recife se fazia merecedor com a majestade de tão real visitante. [...] Por outro lado, conta-se que da parte do pessoal gráfico um fato ocorreu de modo condenável. Numa das matérias da visita imperial, ao pé da composição e como se continuando com o seu texto, um dos tipógrafos ajuntara uma frase ofensiva a Sua Majestade:

Vem aí o sacana-mor do Império.

O danado é que a agressão escapou aos revisores. A matéria saiu com aquele insulto e, ao que se supõe, a edição foi recolhida, sendo raro encontrar-se exemplar com o ostensivo e gratuito protesto partido certamente de algum operário gráfico de ideias republicanas.

(JAMBO, Arnoldo. Diário de Pernambuco: história e jornal de quinze décadas. Recife: Diário de Pernambuco, 1975, p. 196)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O revisor de texto nos anos 50


“O revisor é muito frequentemente um empregado desvalorizado, cujos serviços são considerados por vezes supérfluos. Em muitas tipografias, fica relegado a um cubículo pequeno e abafado que não pode ser aproveitado para outro fim, ou fica encarcerado num desvão de um canto de sala. Idealmente, necessitaria de luz e ar, tudo o que conduzisse à acuidade mental e à perspicácia visual; e, às vezes, ele consegue esse ideal ou algo parecido.

É um engano, e sério e bobo engano, subestimar o revisor, pois dele depende não pouco da reputação de uma casa impressora; e ele pode, ademais, ser o meio para prevenir ações legais de difamação e prejuízos.

Os revisores trabalham ou juntos no mesmo local ou em algumas impressoras em seu compartimento próprio. Assistindo-os, há umas quantas moças ou rapazes, chamados leitores. A tarefa do revisor é descobrir quaisquer erros que tenham sido cometidos na composição e dar instruções para sua correção, e também zelar por que os enganos do próprio autor sejam evitados, chamando, se for o caso, a atenção deste.

[...] De preferência, qualquer livro deverá ser lido antes em sua inteireza pelo revisor. O leitor é então chamado a ler alto, do manuscrito ou do original datilográfico do autor, enquanto o revisor acompanha as palavras da prova, comparando-as com as da leitura, vigiando os erros tanto da composição quanto do leitor, e também do autor, evitando as letras de fontes estranhas que se possam ter infiltrado no texto composto, observando os pontos que possam ser objeto de ação legal ou o que quer que seja que possa comprometer a boa reputação da casa ou possa levá-la a complicações legais.”

(The Making of Books, Sean Jennett, 1956, p. 103. Trecho traduzido por Antônio Houaiss em Elementos de Bibliologia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fábulas Pornomorfológicas (I)



Certa manhã de janeiro de 2009, na fazenda Dicionário...

— Ei! Cadê meus hifens? — perguntou o bumba meu boi.

— O novo Acordo Ortográfico mandou recolher tudo... também fiquei sem nada — disse o pé de moleque.

— Mas que abuso... Isso sim é o que eu chamo de lesa-ortografia! Mas já dou um jeito nisso... — e saiu à cata de pronomes pessoais. Não demorou muito pra se esbarrar com um tezinho:

— Ei, pronominho, vem cá... Tá vendo aquele verbo darei ali? Tá ali, só no futuro do presente, te dando mó mole! Tá esperando o quê, tezinho? Vai lá, rapaz, faz mesóclise com ele!

O pronome não pensou duas vezes: partiu pro bote e se enfiou bem no meio do verbo, formando um dar-te-ei. Era tudo de que bumba meu boi precisava:

— Que tal rolar uma próclise agora? Hummm... Mandou bem, hein, pronominho? Ficou bem assim. Bom, vou aproveitar e levar esses hifens, ok? Com a crise da Reforma, tem muita locução carente por aí precisando disso aqui.

E assim o bumba-meu-boi se mandou, vestido e feliz, com sua antiga ortografia.


Moral da históriaEm terra de reforma ortográfica, quem tem um hífen é rei.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O advogado e a gramática: casa de ferreiro, espeto de pau

O projeto "Sinal do Saber" foi lançado em julho de 2013


Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão
e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho?

(Mateus 7: 3)


Lutero de Paiva, um advogado de Maringá, tomou a iniciativa de transmitir, por meio de faixas, várias lições gramaticais à população: Não existe a palavra menas, somente menos“O plural é troféus e não troféis”; Não é perca de tempo, mas perda de tempo”; O correto é casa geminada e não germinada”; O plural é cidadãos e não cidadões”. Você pode conferir aqui a reportagem do G1.

O projeto foi além dos sinaleiros e já toma conta até de canteiros de obra, onde se tenta corrigir a fala dos pedreiros: “mulher em vez de “muié”; betoneira em vez de “bitoneira”; vassoura em vez de bassoura”. Embora não exista motivo para questionar a boa vontade e a intenção do dotô,  é curioso notar que esse incômodo em relação aos (maus?) usos linguísticos parece não levar certos profissionais de nível superior a questionarem o próprio domínio sobre a norma culta que tanto desejam ver defendida e usada.

Ora, o advogado está implicando com os vícios de linguagem de outras classes (sociais e profissionais) ao mesmo tempo que não atenta para os vícios de sua própria classe, cujo juridiquês — ao contrário da linguagem popular e coloquial, que todo mundo consegue entender — se torna cada vez mais distante de uma linguagem objetiva, direta e inteligível! Se prestarmos atenção direitinho à questão, perceberemos que os usos formais — porém viciadosdos advogados são mais preocupantes e prejudiciais à comunicação e à praticidade do cotidiano do que os usos informais dos pedreiros que desejam corrigir.

É possível notar também certo ranço de indisposição com os usos populares. Não tenho nada contra o potencial criativo do juridiquês, mas se os advogados se reservam o direito de criar neologismos como inobstante e presentante, por que se incomodar com variações surgidas entre falantes de âmbitos menos cultos?


Lutero quer combater o uso dos "vícios de linguagem"

Ora, o chicote do rigor deve ser compartilhado com todos. O que eu recomendo é que ele aproveite a oportunidade de, ao mesmo tempo que tenta esclarecer os incultos sobre as formas ditas corretas,  também elaborar as seguintes faixas: 

Advogado, você sabia que o correto é uma vez que e não de vez que ou vez que?

O correto é por via de regra e não via de regra.

A palavra alegativa não tem registro dicionarizado; em seu lugar, use alegação.

Não se diz lado outro, e sim por outro lado.

Face a é expressão errada. Use em face de ou em face a.

O verbo da expressão no que pertine não existe!

Essas são apenas algumas sugestões. Talvez dê um trabalhão criar banners para cada vício advocatício, mas garanto que tal medida, se levada adiante, poderia se mostrar tão útil quanto aquela tomada recentemente pelo dotô.

Vale observar que o ímpeto de Lutero não é novidade em seu meio. Durante a primeira década do século XX, o (rufem os tambores!) grande jurista Ruy Barbosa travou um histórico duelo gramatical com seu antigo mestre, o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro: a chamada revisão do Código Civil (1902-1905), considerada por Leite (1999, p. 76) “o maior símbolo do purismo linguístico do português do Brasil”, é um episódio que ilustra perfeitamente a manutenção de um critério de correção que não se pautasse pela forma (falada e) escrita no Brasil, tal era o apego ao português lusitano.


Carneiro Ribeiro (1839–1920). Segundo Piacentini,
"o maior gramático que o Brasil já teve".


Ruy, chamado por Monteiro Lobato de canto de cisne da língua portuguesa”, era defensor fervoroso da “ideia de uma língua em uso por autores portugueses canônicos” (MARIANI, 2011, p. 253) e combateu a redação dada ao projeto do Código Civil, então abonada por Carneiro Ribeiro, que defendia a normatização de peculiaridades do português falado no Brasil  (em resposta a seu ex-discípulo, o gramático afirmou que “temos, logo, razão de dizer: o purismo exagerado, intransigente, é impossível, perante o estudo histórico das línguas”). Até hoje, a famosa Réplica (1902) de Ruy é lembrada como espécie de obra-prima da defesa do português culto, mas não se pode ignorar o fato de que sempre lhe foi atribuída uma autoridade e um conhecimento dos quais carecia (como o saber filológico, por exemplo).

Você duvida? Os fãs do Águia de Haia odiarão ler as próximas linhas: “É surpreendente que ele mesmo [Ruy Barbosa] incida em numerosas incorreções que implacavelmente condenava, como, num dos excertos [...] citados: Escasseava-lhe [...] as luzes indispensáveis’, ou, incansável caçador de cacófatos, ao defender-se das acusações de que também os cometia: ‘Sendo, porém, a coisa desprezível [...] eu me não ocuparia [...]. Além disso, Barbosa “se colocava na posição de quem decide o que é vernáculo e o que não o é” (MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira, vol. V, 1879-1914, p. 170).

Como se pode constatar, trata-se de um mal histórico da classe advocatícia.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

COmédiA da vIda TiPoGráfiCA (I)


— E aquele tipo sem serifa bebendo sozinho e cabisbaixo naquela mesa?

— Ah, é do tipo que vive interessado em gente serifada que nem liga pra ele.

domingo, 22 de setembro de 2013

Um curso maldito desde sempre



[...] ocorreram nessa relação alguns problemas. [...] um segundo problema se dava os gênios de Sr. Allan e de Edgar Allan Poe. O Sr. Allan gostava de coisas que o poeta não gostava: queria que estudasse Direito, Poe preferia as Letras [...].

(Edgar Allan Poe: um homem em sua sombra, Ricardo Araújo, p. 33)


Moral da HISTÓRIA: Nada mudou até hoje. Desde sempre, pais querem que os filhos façam Direito ou Medicina, e não esses malditos cursinhos de Letras.

sábado, 31 de agosto de 2013

Contra médicos estrangeiros

Os gregos são uma raça que não vale nada, não se consegue ensinar nada a eles. Ao conceder sua literatura para nós, eles irão destruir toda a nossa existência. Esse processo será ainda mais rápido se eles enviarem seus médicos, pois estes estão conspirando para matar, com sua medicina, qualquer um que não seja grego. Eles nos fazem pagar pelo tratamento para que depositemos neles toda a nossa confiança, apenas para nos arruinar mais facilmente.” (Catão, o Velho, 234 a.C. – 149 a.C.)

(citação extraída de McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)

Hic habitat felicitas



HIC HABITAT FELICITAS ("A felicidade mora aqui"). Essa frase com a ilustração foi colocada originalmente no centro do arco sobre o forno de um padeiro de Pompeia para espantar os maus espíritos. No começo do século XX, a placa foi transferida, juntamente com dúzias de artefatos que hoje em dia dificilmente seriam considerados ofensivos, para o "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu Arqueológico de Nápoles. A mesma inscrição, seguida de nil intret mali ("Que nenhum mal entre"), mas sem a ilustração, foi encontrada em um mosaico na entrada de uma casa de Salisburgo. Restaram muitos anéis decorados com um símbolo fálico daquela época, que eram usados por crianças como amuletos de proteção.

(McKEOWN, J. C. O livro das curiosidades romanas. 2. ed. Belo Horizonte: Gutenberg, 2012, p. 192)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Nunca tantos leram tão pouco (1949)

Nunca houve tanto automóvel circulando, tanto rádio novelizando, tanta eletrola domesticando música, e nunca se vendeu tanta geladeira elétrica, tanta vassoura elétrica, tanta lavadeira elétrica, e tantas outras maravilhas, elétricas ou não, que representam o sonho de todo o mundo e que constam de todo o orçamento pré ou post-nupcial. [...] Enquanto livrarias se fecham e editores mudam de profissão, os cinemas, os auditórios de rádio (a Cr$ 15,00 por cabeça) e os estádios esportivos vivem repletos e prosperam.

(ROSENBLATT, Maurício. Nunca tantos leram tão pouco. Jornal de Letras. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1949)

sábado, 27 de julho de 2013

PM divulga imagem de manifestante que atentou contra a norma-padrão durante protesto



RIO – A Polícia Militar divulgou hoje imagem, com melhor visualização, em que um manifestante faz claramente uso ilegal de concordância verbal. Conservadores apontam crime de lesa-gramática: de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, o falante deveria ter redigido "não se fazem..." em vez de "não se faz" no cartaz que empunhava.

Linguistas saem em defesa do acusado e alegam que o falante de português entende o "se" como índice de indeterminação do sujeito. A PM rebate argumentando que o sujeito não está indeterminado coisa nenhuma, pois o elemento já foi identificado.

Vários manifestantes declararam que o atentado não teria sido cometido pelo falante P1, mas sim por um falante P2 (agente infiltrado da polícia) que, momentos antes do protesto, trocou o cartaz do manifestante com outro redigido em outra variante linguística a fim de provocar discórdia gramatical e a ira da classe linguística conservadora. Entretanto, de acordo com a corporação, o P2 não domina nenhuma das variantes linguísticas envolvidas e jamais poderia, portanto, ter cometido um ato tão bem pensado como esse.

domingo, 23 de junho de 2013

De poesia do socialismo português a canção do rock brasileiro

Reinaldo Ferreira (1922-1959):
joia literária a ser (re)descoberta

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (1922–1959) foi um poeta português singular. Nunca teve um só livro publicado em sua breve vida, passada toda em Moçambique, mas deixou um legado tão marcante e significativo que até levou críticos literários a compará-lo estilisticamente a Fernando Pessoa. A descrição mais recente de sua vida e obra foi publicada no livro Poesia do Socialismo Português (2010).

Sua obra completa — que jamais contou com uma publicação impressa na íntegra — pode ser visualizada inteiramente neste link.

Apesar de certo ostracismo (talvez seja um poeta mais lido por autores que por leitores), alguns poemas de Reinaldo Ferreira foram musicados por compositores portugueses. Curiosamente, um deles foi musicado (tendo seu texto levemente modificado) no Brasil, em meados dos anos 80, por Edgard Scandurra, guitarrista da banda IRA!, que lançou a música em 1988 no disco Psicoacústica (elogiado pela crítica, mas fracasso de vendas):


Receita para se fazer um herói*

Tome-se um homem, 
Feito de nada, como nós,
Em tamanho natural.

Embebece-se-lhe a carne,
De um jeito irracional,
Como a fome, como o ódio.

Depois, perto do fim,
Levanta-se o pendão,
E toca-se o clarim.

Serve-se morto.


A canção pode ser ouvida aqui.

O amado e odiado LP "Psicoacústica", lançado em 1988
Scandurra tomou conhecimento desse poema no início dos anos 80 ao servir no Exército, ocasião em que conheceu o soldado Esteves, que havia lhe apresentado picaretamente o texto como sendo de sua autoria. O nome do soldado saiu nos créditos (Esteves, cadê você?, perguntava no encarte o guitarrista, cujo contato havia se perdido), mas, assim que a canção começou a fazer sucesso nas rádios FMs da época e se tornou um hit, Esteves reapareceu na vida de Scandurra e reclamou uma grana absurda pela autoria, ameaçando pedir na Justiça o recolhimento do disco nas lojas. Isso acontecia ao mesmo tempo que uma leitora daquela que foi um dia a mais popular revista especializada em música do país, Bizz, acusava a banda de plágio porque havia lido a letra da música num livro de História. De acordo com um jornalista da Bizz, José Flávio Jr., toda a confusão só foi esclarecida quando a viúva do poeta português foi localizada e encontrada (observem que esse caso dificilmente teria chegado a tal ponto nos dias de hoje, em que uma consulta ao Google se faz suficiente para se comprovar muitas autorias).

Por causa dum soldado picareta do Exército, um poema português se transformou num sucesso de rock radiofônico no Brasil dos anos 80. E, sem essa picaretagem e a posterior musicação do poema, provavelmente eu estaria ignorando até hoje a existência de Reinaldo Ferreira e sua interessante poesia.



* O título original do poema é Receita de herói; seu texto original (uma referência implícita às receitas culinárias) é: "Tome-se um homem feito de nada/ Como nós, em tamanho natural/ Embeba-se-lhe a carne/ Lentamente/ De uma certeza aguda, irracional/ Intensa como o ódio ou como a fome./ Depois, perto do fim/ Agite-se um pendão/ E toque-se um clarim./ Serve-se morto."

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Origem e história das minúsculas

Trecho do Manuscrito de Freising (séc. X),
um dos mais belos exemplos de minúscula carolíngia

As maiúsculas, todo mundo sabe: primeiro apareceram nas fachadas e nos monumentos de Roma no século I como elemento decorativo que enfatizava o poder dos romanos no começo da era cristã. Mas e a caixa-baixa? Aconteceu no século VIII, sob o reinado de Carlos Magno, o rei do mundo naquela época. Carlos Magno convocou o escriba-mor da corte, o Bispo Alcuin, na cidade de York, e encomendou-lhe uma letra que fosse bela, legível e fácil de escrever.

Alcuin criou uma letra maravilhosa chamada “Minúscula de Carlos Magno” ou Minúscula Carolíngia. Essa letra passou a ser obrigatória para todos os escritos do rei, que queria assim fazer com que todos lessem a Bíblia do mesmo jeito, dando-lhe uma interpretação padronizada (a igreja sempre por trás dos escribas). A Minúscula Carolíngia era usada em todas as situações, o que na verdade foi a primeira identidade visual racionalmente criada com objetivos pré-estabelecidos. Hoje em dia, é fácil datar os livros dessa época só pela sua letra. Mas a grande vitória da Carolíngia foi na Renascença, quando o alfabeto foi todo redesenhado. O padrão para as maiúsculas foi a Capitalis Romana do século I, e o padrão adotado para as minúsculas foi a carolíngia que, por um erro de datação, foi classificada como contemporânea da Capitalis, setecentos anos mais velha. Então, a maiúscula é filha da arquitetura clássica de Roma [...]. E a minúscula é filha da mão do bispo Alcuin, o grande calígrafo de Carlos Magno.

(GIL, Cláudio.  De onde vieram as minúsculas. In ORCADES, Carlos M. (Org.) Almanaque Tipográfico Brasileiro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008, p. 16).